O meu “monstro” é maior do que o teu

5 de Fevereiro de 2009
O mapa do jogo de FC Porto e Benfica: Quem tem, em cada onze, o “GPS” táctico que conduz a bola até aos avançados?

 

Pensar num jogo de futebol como um confronto de jogadores é como entrar numa galáxia à margem das discussões tácticas mais terrenas. É tentador pensar o próximo FC Porto-Benfica, imaginando um confronto Hulk-Lisandro contra Cardozo-Suazo. O meu “monstro” é maior do que o teu. Quatro jogadores que driblam a táctica. Mas para isso suceder, a bola teve antes de percorrer um itinerário, mais ou menos longo, até chegar junto da área, onde se decidem os jogos. É esse, muitas vezes, o grande problema desses “seres superiores” atacantes. A sua eficácia depende muito desse mapa táctico prévio que, no final, determina como a bola lhes chega, em que posição e com que espaços.
 
FC Porto e Benfica jogam em sistemas diferentes. 4x3x3 e 4x4x2. Tal, por si só, altera a combinação das duplas atacantes. Por isso, é curioso reparar que mesmo jogando com três avançados, em 4x3x3, o FC Porto criar uma dupla atacante mais pura do que, por definição, o 4x4x2 do Benfica, com dupla atacante de origem no sistema, deveria produzir. A diferença resulta exactamente da ordem colectiva que conduz a bola até chegar ao ataque.
 
Detectar quem, no relvado, conduz a bola com esse GPS táctico ajuda a perceber a diferença entre as duas equipas no processo de construção de jogo. Fernando no farol do onze, Raul Meireles e Lucho no passe. O onze tem processos bem definidos de construção, onde muitas vezes surge um avançado que na génese é um médio. O “Cebola” Rodriguez. Mas não é um médio qualquer. Diferente da noção construtora do GPS de Lucho, é um médio transportador de bola.
 
No mapa de jogo benfiquista é mais difícil detectar o verdadeiro dono do GPS táctico. Há uma âncora. Katsouranis, mas a partir daí faltam referências claras de transporte. Ruben Amorim joga sobre uma ala. Nesse espaço, longe da auto-estrada do corredor central, apenas pode descobrir atalhos de progressão. Há, no entanto, uma capacidade diferente de meter uma segunda velocidade no jogo, diferente do FC Porto, com um ritmo mais estável. É quando Reyes ou Carlos Martins, cada qual no seu estilo, aceleram para a área adversária. Nunca o fazem, porém, com GPS. São puras aventuras por atalhos desconhecidos. Esse mistério também existe, no entanto, na cabeça dos adversários. E isso pode fazer a diferença.  
 
Nesse sentido, o que pode favorecer o Benfica neste jogo é todo este mapa táctico natural se “partir” e entre as diferentes linhas surgirem espaços vazios onde possa soltar um futebol longo para a velocidade de Suazo, caindo nas costas dos centrais portistas. Em resistir à tentação de subir no terreno pode estar a melhor forma da defesa azul-e-branca se proteger das explosões do maior monstro encarnado com espaços, Suazo.
 
Um dilema que é, ao mesmo tempo, um dos principais problemas tácticos do Benfica esta época. A dificuldade em fazer subir a sua defesa sem, depois, sofrer com isso. Luisão parece dos melhores centrais do mundo quando encostado à sua área a fazer cortes, mas banaliza-se quando forçado a defender mais à frente e, de repente, entra-lhe um avançado adversário nas costas. Hulk e Lisandro sabem disso, claro.
 
Para FC Porto e Benfica são de tentar defender “alto”, como deve fazer, por natureza, uma verdadeira grande equipa.  
 Jesualdo e Quique, nos bancos. Na relva, cada qual com os seus “monstros”, ambicionando perder o respeito pelos chamados jogadores “normais”. Ambas as espécies, porém, fazem um jogo. Qual deles condiciona mais o resultado depende da tal estrada táctica. Porque até os “monstros” necessitam de boas ideias para ter qualidade de vida dentro de um relvado de futebol.

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