Retenho aquelas imagens pelo inolvidável bom futebol de sábado à tarde em bancadas cheias que faziam imaginar outros Estádios, os ingleses, que só conhecia do preto-e-branco da TV. Era meados dos anos 70. O Celso equilibrava atrás, os laterais subiam, com o careca Taí, nas alas o Acácio e o Francisco Mário e no meio um craque, como ele jogava, o Alves. Na frente, o Mané e o Salvador. Era o Boavistão de Pedroto. Imagino as posições e redescubro um desenho confirmado numa entrevista dada a A Bola pelo Mestre: “O nosso quatro do meio-campo definia-se num 1x2x1. Esta era a figura geométrica (losango) que ressaltava a todo o momento da dinâmica de jogo que esse quarteto impulsionava”.

Foi o meu primeiro losango. O Sporting de Paulo Bento revitalizou essa geometria. Tenho pena de não ter jogos inteiros daquele velho Boavista. Porque era como imagino um losango em movimento. Abre em posse (isto é, os médios caem nas faixas) e fecha sem bola (isto é, os médios flectem para dentro). Tudo depende da filosofia do treinador mas há traços essenciais para um bom losango.
1. Laterais capazes de dar profundidade à faixa sem perder o timing de recuo para o momento defensivo. Em geral, um deles mais ofensivo do que o outro, sendo este capaz de fechar por dentro. 2. Um pivot-defensivo com sentido posicional e rápido a sair na transição defesa-ataque. 3. Um médio capaz de dar largura, flanqueando jogo ou dando profundidade ofensiva. 4. Do outro lado, um mais culto a jogar por dentro, abrindo a faixa ao lateral e cobrindo-o na transição defensiva. A atacar, fazendo diagonais. 5. No vértice ofensivo, um médio mais vertical que entre de trás na zona entre linhas para passar ou rematar. 6. Essa dinâmica seria cruzada com avançados móveis que saibam cair na faixa e entrar de fora para dentro, jogando nos espaços um do outro.
No losango leonino, estas dinâmicas encravam sobretudo no corredor central. Se noutros sistemas a posição de pivot-defensivo é a única que até aguenta um jogador algo lento, no losango não. Porque, em posse, os médios abrem nas alas. Nessas alturas então o nº6 ficar sozinho com muito terreno livre à frente. Se não tiver velocidade para avançar em posse, ou faz um passe longo, de sucesso arriscado, ou força um dos outros médios a recuar para pegar na bola, travando a fluidez de transição defesa-ataque. É o que sucede no Sporting com Veloso ou Rochemback. No vértice ofensivo, falta a tal verticalidade a Romagnoli. Seja a primeiro ou segundo pivot (esqueçam os rótulos defensivo ou ofensivo) é Moutinho quem melhor percebe tudo isto. Nas alas, Izmailov flanqueia bem o jogo, mas falta quem lhe dê profundidade séria, como Vukcevic.
O losango é das estruturas que mais depende da inteligência táctica dos jogadores do que da qualidade técnica. Não é uma invenção moderna. Com aquele Boavista comecei a aprender o que era bom futebol. Nunca se esquece. Talvez por isso exija tanto ao losango de Bento. É injusto, admito. Até porque falta um génio de luvas pretas.