O mistério da "segunda bola"

4 de Março de 2010 19:57
A importância da segunda bola é tanto maior quanto for a consciência que, em rigor, no, campo só existe...uma bola!

 

A bola caíra na entrada da pequena área do FC Porto, o alívio é feito (a primeira bola é afastada), mas, por perto, ainda dentro da área, ela volta a surgir e agora é Djaló que surge a rematar (a segunda bola ficara viva). Golo! Falei, na descrição do lance, em primeira e, depois, em segunda bola, mas, em rigor, a bola é sempre a mesma. Durante aquele tempo, curto, só esteve uma bola em campo! Como explicar então este mistério da multiplicação das bolas?
A fluidez de jogo está directamente relacionada com a bola. O comportamento sem ela (visando a recuperação) está directamente relacionado com a velocidade de reacção após a sua perda. São quase como momentos de fronteira por entre os quatro grandes momentos do jogo. Penso, especificamente, nos ressaltos que provocam logo a seguir lances divididos pela posse da chamada segunda bola. No fundo, trata-se de um segundo problema que a equipa parecia ter antes resolvido, mas que, de repente, volta a surgir e de forma redobrada.
É, ao mesmo tempo, o curto instante em que a outra equipa pode reagir para recuperar a bola e, nessa altura, conseguir várias coisas no jogo: travar a transição do adversário, recuperar o equilíbrio e, se for num espaço-chave, pode ser decisivo no ataque à baliza adversária, inventando uma mortífera zona de finalização. Há zonas do relvado onde esses factores (consequências) são mais sensíveis. Era o que Rinus Michels chamava de «espaços operacionais». Por isso, muitos treinadores procuram definir zonas estratégicas (os chamados espaços operacionais) para ganhar essa segunda bola. São, afinal, os espaços que, no jogo, mais concentram (e decidem), de forma imponderável, os momentos de transição, equilíbrio e finalização.
 
Uma equipa bem preparada para lutar (e ganhar) as segundas bolas (podem chamar-lhe ressaltos) é, desde logo, uma equipa bem preparada mentalmente. Porque para além de ser necessário estar tacticamente nos sítios certos, é obrigatória a capacidade de resposta a sucessivos estímulos competitivos intensos (pela posse). Muitas não aguentam esse segundo estímulo e, por isso, perdem as segundas bolas, ou melhor, a segunda luta pela posse da bola. Dificilmente, no global, uma equipa resiste, no jogo, à falta dessa competitividade reactiva.
Os últimos jogos dos grandes têm sido (para o bem e para o mal), um bom meio para decifrar esse mistério da segunda bola. Por exemplo, os dois jogos do Sporting contra o FC Porto. Na goleada sofrida no Dragão (onde perdeu quase todas as segundas bolas, em todo o campo), na vitória conseguida em Alvalade (onde as ganhou quase todas). Neste último caso, repare-se nos seus três golos e em como eles resultaram de segundas bolas (ressaltos) ganhas em espaços operacionais de finalização. Tudo isto centra-se na capacidade para responder a estímulos tácticos (atacar o espaço) e mentais (activar o clic na cabeça para o fazer). Quanto mais (segundas) respostas sucessivas desse tipo der em campo, mais competitiva será uma equipa no futebol moderno.
 

 

 

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