O moderno “futebol dos predadores”

20 de Fevereiro de 2010 06:21
A diferença entre esperar ou provocar o erro do adversário como forma de distinguir equipas e personalidades. O olhar da equipa “bem educada”.

 

Os melhores momentos de um jogo de futebol raramente são apenas um modelo de virtudes. Ou seja, em geral, ao momento de inspiração de um jogador (ou equipa) conjuga-se uma falha do adversário. Esse conceito de erro é, no futebol moderno, cada vez mais o que decide os jogos. Existem, porém, formas diferentes dele surgir nos 90 minutos. O comportamento de uma equipa pode ser, assim, quase a de um “predador” à espera que a sua presa se distraia. Ou, pelo contrário, usar de estratégias para a desconcentrar. A grande distinção, futebolisticamente falando, faz-se, portanto, entre equipas que esperam o erro do adversário e as equipas que o provocam. É muito diferente. Ambas as estratégias são legítimas (e dependem muito das armas que cada uma tem ao dispor) mas, no plano global, tal distingue desde logo a personalidade de cada onze.
 
No regresso do FC Porto à Europa, dois golos onde o fantasma do erro invadiu a área do Arsenal. Um guarda-redes “furado” e um par de jogadores desconcentrados na hora de um livre indirecto. Dois factores que fogem à lógica natural (táctica ou técnica) do jogo, mas que, rindo-se das analises mais cientificas, o resolvem num ápice. Cada vez mais as equipas esperam que o jogo traga situações destas. Mais do que provocar o erro do adversário, esperam por ele.
 
O Braga de Domingos não é, por definição, uma equipa “cínica”, tem inteligência ofensiva, mas na essência, é uma equipa que assenta os grandes pilares do seu jogo numa imperturbável organização defensiva (a autoridade de Moisés) e aproveita felinamente (os arranques de Alan ou Paulo César, as aparições de Mossoró ou Aguiar) os momentos em que o adversário “dança” nas marcações. Não provoca o erro porque corre poucos riscos, mas mais do que só esperar por ele, pressente-o como mais nenhuma outra equipa neste campeonato. E, assim, tem ganho jogos atrás de jogos. Pode um campeão ser construído com estas bases? No futebol actual, sem dúvida. Não será, no plano estético o projecto mais sedutor, mas é, no plano táctico, o mais frio e rigoroso. Diz Van Gaal que “a educação táctica dos futebolistas é o mais importante para uma equipa ter sucesso”. Nesse sentido, o Braga é uma equipa tacticamente “bem educada”.
 
É difícil imaginar, geneticamente, uma equipa do FC Porto com esse mesmo grande princípio de jogo. Pelo menos no plano, nacional claro. Por definição, um onze azul-branco, quando não decide o jogo só pelo poder próprio, sufoca o adversário até ele errar. O grande desafio é perceber se, na realidade concreta deste campeonato, esta será a melhor forma de vencer um candidato diferente (no nome e no estilo) de todos os outros que surgiram nas últimas décadas.
A forma como a palavra ansiedade tem surgido para descrever, esta época, muitas exibições do FC Porto perante adversários mais fechados é a maior diferença em relação ao passado, quando era a palavra serenidade que, mesmo perante os maiores cadeados, mandava no jogo portista. No fundo, o onze de Jesualdo necessita de uma diferente “educação futebolística”. Jogadores capazes de perceber diferentes tipos de jogo. Pensar num meio-campo Fernando-Meireles-Micael implica três diferentes formas de jogo. Porque jogam todos em ritmos e estilos diferentes. A missão é dar-lhe (aos movimentos de cada um) uma ideia colectiva, onde o recém-chegado Ruben Micael seja o novo gestor da máquina (de tácticas e emoções).
À medida que o campeonato se aproxima do fim, cada vez mais os jogos se decidem na chamada “inteligência táctica emocional”. Controlar a ansiedade para, primeiro, precaver o erro próprio, e, depois, prever (e aproveitar) o erro alheio. É o moderno “futebol dos predadores”
 
O leão
solitário
 
 Pensando em jogadores “predadores”, daqueles avançados que, mesmo sem a sua equipa estar a atacar, rondam os defesas adversários enquanto eles trocam a bola para tentar sair a jogar, leva, imediatamente, a pensar em Liedson. Para além do seu oportunismo letal quando lhe metem uma bola à frente na área, ele cheira o “sangue” (o erro) na defesa adversária como mais nenhum avançado no futebol actual. Às vezes até parece fazer-se de distraído mas é uma ilusão para levar o adversário a descomprimir o passe. E, na altura certa, como um felino, ele ataca o erro da “presa”, perdão, do defesa. E rouba-lhe a bola.
O golo que marcou contra o Everton é o exemplo perfeito deste instinto predador que faz um grande avançado no futebol dos erros. Pressentiu a hesitação do defesa meio torpe com a bola nos pés e, num ápice, quando o jogo (a eliminatória) parecia perdida, Liedson devolveu-a à vida. Roubou a bola, arrancou para a baliza, falta, penalty, golo! Mais do que uma estratégia colectiva, a “obra predadora” de um “leão solitário” para, por fim, resgatar uma equipa que, mais uma vez, via o destino do jogo fugir-lhe.
 
 
Hulk contra
o “mundo”
 
E, de repente, num cenário de estrelas, a porta abre-se. Hulk volta ao relvado, contra o Arsenal. Volta igual. Na posição e no estilo. Cada arranque seu levanta o Estádio mas à medida que avança com a bola, a ideia que dá é que em vez de caminhar para a baliza, avança para chocar contra um muro feito de duros defesas ingleses. E o seu jogo foi quase sempre assim: choques e bolas perdidas. O perturbante é que antes ele provoca o mais difícil, o que poucos jogadores conseguem no futebol actual: mobilizar só em torno de si, mal pega na bola, três ou quatro jogadores adversários. Um facto que, por si só, libertaria outros jogadores portistas, soubesse depois Hulk também os ver. E passar-lhes as bola, claro. Talvez um dia isso aconteça. Até lá, a sensação insofismável que Hulk voltou exactamente como estava, para o bem e para o mal. Veremos que lado desse “jogo particular” surgirá em Londres.
 
 

 

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