O «momento» azul da época

1 de Junho de 2009
A equação Cissokho-Rodriguez, como a relação entre dois jogadores muda o caminhar de uma equipa.

 

Alice perguntou: “Poderia me dizer que caminho devo tomar para sair daqui?”- “Isso depende bastante de onde você quer chegar”, disse o Gato. -“O lugar não me importa muito...”, disse Alice. “Então não importa que caminho vai tomar”, disse o Gato. “...desde que eu chegue a algum lugar”, diz Alice, duvidando.” –“Oh, você vai certamente chegar a algum lugar”, disse o Gato, “se caminhar bastante.”
 
Será estranho utilizar um diálogo de Alice no País das Maravilhas para falar de futebol. Há aqui, porém, algo de metaforicamente escondido, no plano futebolístico, que toca a construção de uma equipa de futebol e sua evolução na época. Porque todas elas iniciam, de facto, esse trajecto querendo, sobretudo, começar a andar rapidamente, mas poucas conseguem, desde esse inicio, distinguir o seu destino. Ou seja, perceber como andar (entenda-se como jogar) e por que caminhos (entenda-se modelo e sistema).  
 
A forma como o FC Porto chegou ao título é um bom exemplo. Porque foi a equipa que, durante a época, percebeu melhor onde estavam os seus problemas. Foi, até, importante, na fase mais sombria, perder alguns jogos. Só assim se evita a ilusão sobre os melhores caminhos que algumas vitórias provocam. O Benfica não soube colocar a si próprio as mesmas questões. A proximidade do primeiro lugar iludiu a equipa (e treinador) do caminho para onde se estava a dirigir.
 
Nesse caminho (construção), o FC Porto tem um momento chave: a contratação de Cissokho. Mais do que pelo simples valor do jogador, sobretudo pelo que mexeu com as dinâmicas de outras posições (e jogadores) nos grandes princípios de jogo da equipa. Ao descobrir um lateral capaz de dar profundidade de jogo pela faixa esquerda, Jesualdo encontrou a forma de colocar Rodriguez a jogar mais por dentro, em zonas interiores, retirando-o da faixa onde não conseguia soltar o seu melhor futebol, incapaz de ser o extremo que, no inicio, pareciam queriam fazer dele.
 
Esta relação Cissokho-Rodriguez e sua influência na evolução do jogo portista é um exemplo perfeito de como o melhor futebol vive, numa equipa, da capacidade de relação zonas laterais-zonas interiores. Sem descobrir Cissokho, o mais certo teria sido Rodriguez continuar a caminhar o resto da época preso na faixa esquerda, já que, se o tirasse dessa posição, então é que a equipa nunca mais chegaria à frente por esse flanco.
 
Sem decidir onde se quer chegar (jogar) é impossível decidir o melhor caminho a tomar. O FC Porto percebeu isso. Desde o inicio da época, Rodriguez “caminhou bastante”. Só a partir do seu meio, porém, soube “o lugar onde queria chegar”. Foi a entrada de Cissokho que lhe deu essa indicação e permitiu-lhe outro «jogar».
 
Mas os jogadores não crescem sozinhos. Entram em campo e querem é correr (caminhar) quase como um instinto primitivo de quem pisa um relvado e vê uma bola. Como Rodriguez e Cissokho. Ao treinador é fundamental mostrar-lhes a importância do «caminho», princípio e fim de cada acto táctico. E, depois, sim, caminhar bastante…  

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