Ansiedade. Uma palavra que perturba só de ouvir. Não falo, claro, da ansiedade de uma velha e bela melodia cubana celebrizada pela voz de Nat King Cole. Ansiedade de tenerte en mis brazos, musitando palavras de amor… Nesse contexto afectivo até pode ser fantástica. Noutro cenário, pode tornar-se uma terrível ameaça. Metida em onzes seres humanos em movimento confunde os pensamentos mais básicos. Sintomas clássicos: precipitação, incerteza, dificuldade em realizar o pensado, irritabilidade. Começar por analisar uma equipa de futebol deitando-a num divã de psicanálise pode parecer abusivo. Mas não é. A ansiedade é mesmo, talvez, o maior inimigo de uma boa equipa apanhada fora do seu tempo competitivo. Noutro local e tempo, ela lidaria com a mesma situação com toda a serenidade e confiança do mundo.
A pré-eliminatória da Champions apanhou muitos pontos da equipa do Benfica com a cabeça e o corpo noutros locais. Um lateral-direito titularíssimo num voo transatlântico de 12 horas. Um defesa-central a dar uma entrevista no aeroporto dizendo que talvez fosse melhor ir embora e dar lugar aos novos. A equipa tem, porém, mais pontos a onde se agarrar. A competitividade é uma qualidade mental, de fonte espiritual, antes que puramente futebolística. Nessa equação, outros jogadores conheciam outros caminhos mentais (e, por inerência, de discernimento táctico de movimentos) em campo.
Quando um treinador vê essa maldita palavra ansiedade a emergir sob a cabeça global da equipa, o mais natural é procurar refúgio no que conhece melhor (os jogadores já adaptados) do que no que ainda está a descobrir (os jogadores que chegaram). É o melhor princípio. Pode, porém, não ser o melhor final. Porque a equipa dominada pela ansiedade é um monstro de sete cabeças. No caso deste primeiro Benfica versão 2011/2, personificadas desde Artur, Luisão, Garay, Javi, Aimar, Gaitan e Cardozo, o esqueleto base do onze, atormentado com diferentes estados de espírito (diferentes cabeças) dentro dele.
Falemos então de táctica: a confiança liberta a mente, solta as pernas, facilita diálogo, dispara o talento, faz as coisas acontecer… Sim, estas são palavras tácticas. Porque são elas que permitem as transições bem feitas, as diagonais que criam desequilíbrios, as melhores fintas, cortes e remates. Num mundo futebolisticamente saudável, sem perturbações psicossomáticas (a ansiedade, outra vez) tudo isto deve funcionar em conjunto de forma coerente durante 90 minutos. Num mundo futebolisticamente adulterado no plano emocional, não é assim. E, de repente, o tipo de jogador improvável ou que consideramos exibicionalmente mais gelatinoso (entenda-se estilo 15 minutos bons, 75 intranscendentes) pega no jogo como pega pelas cordas de um boneco de marionetas. E fá-lo mover. Com critério e sentido.
Jesus não é um camaleão táctico. Fidelidade pura ao 4x1x3x2 com asas. Mudam os jogadores, permanecem as vontades tácticas. Frente a um onze turco que até deu espaços porque também tentou atacar, destaparam-se vários buracos da fechadura para furar a ansiedade. E, fiel à origem música, tudo mudou com um espanhol, Nolito. Uma tabela (o gesto mais primário, simples e eficaz do futebol ofensivo para ultrapassar defesas), espaço criado e o remate meio acrobático, meio enrolado, mas que levava uma bomba anímica consigo. Pouco depois, o arco teleguiado de Gaitán já tinha outra origem. A daquelas palavras tácticas descritas atrás que, num ápice, haviam surgido a partir do remate desbloqueador de ansiedade de Nolito. Só assim as equipas versão monstros de sete cabeças conseguem chegar aos resultados, musitando palavras (jogadas) de amor futebolístico.
Os sonhos, sonhos são
Em tese, não acredito muito nos chamados períodos de adaptação. Nem sequer estou a pensar em futebol para dizer isto. Acredito que a sensação de não pertencer ao local onde estamos, de desencaixe inicial, estranho, pode ser, por si só, um motor. Não por se ser muito melhor, mas por se estar mais focado no que se faz, em atingir um objectivo.
Claro que no futebol (como na vida, afinal) tudo isto tem de ser enquadrado no colectivo onde se joga (vive) entendendo a distinta realidade que se passa a inserir. É a tal adaptação ao estilo e ritmo. Penso, naturalmente, nos jogadores que chegam a um novo clube. Precisam, sem dúvida, dessa adaptação, mas muitas vezes, ironicamente, é quando chegam, e jogam ainda com a sensação de não pertença, que são mais puros, que são mais eles próprios. Tive este pensamento vendo Kelvin a fintar pelo FC Porto contra o Peñarol, Rinaudo a comer a relva e a recuperar centenas de bolas nos primeiros jogos pelo Sporting e, por fim, vendo Nolito, confiante e destemido, resolvendo o jogo pelo Benfica contra o Trabzonspor.
Todos tiveram, neste primeiro futebol num mundo diferente, o motor da dissonância. O desafio é, agora, seguirem diferentes dentro da lógica de funcionamento colectivo da equipa. O que mais assusta no futebol actual é que as equipas (e seus jogadores mais importantes) estão a ficar demasiado iguais. Apercebendo-se deste tipo de elemento dissonante, o único objectivo para um treinador, mantendo sempre a necessidade de transfer colectivo presente, deveria ser o de aplicar-se, exclusivamente, em criar contextos de jogo e grupo que permita a esse jogador continuar a provocar abalos nos jogos.