O «motor» Karagounis

1 de Setembro de 2005
VELOCIDADE E EXPLOSÃO: UM «FLANQUEADOR» COM TRAÇOS DE ORGANIZADOR DE JOGO.
Precisão e velocidade nos pés e na mente de um dos mais vertiginosos talentos do novo futebol grego: Giorgios Karagounis. Nos passes largos revela visão de jogo, nos dribles, virtuosismo e na forma de entrar de trás, vocação ofensiva e remate. É um flanqueador com dotes de organizador de jogo. Chega a Portugal quase como um refugiado do tacticista futebol italiano que, durante duas épocas, aprisionou o seu poder de explosão a um flanco, impedindo-o de soltar os traços rebeldes do seu futebol…
Na nossa memória ainda mora aquela perturbante imagem que abriu o Euro-2004. Meio curvado, um pequeno grego de sobrolho carregado e dentes cerrados, arrancou com a bola invadindo o nosso meio campo, prendendo a respiração de um país inteiro. Aproximou-se da área portuguesa e, como um diabo encarregue de nos destruir o sonho, perante um capitão luso, Fernando Couto, meio assustado, recuando, encolhendo-se perante o ousado grego, desferiu um remate colocado que bateu Ricardo. Estava apresentado à nação portuguesa um dos jogadores que, no futebol actual, melhor maneja a correcta sequência de construção e expressão do talento: primeiro precisão, depois velocidade. Seu nome: Giorgios Karagounis. Quando, rápido, com a bola controlada em progressão, pisa os últimos 25 metros do relvado, parece ganhar uma dimensão capaz de galvanizar toda a equipa. Por vezes, a velocidade vertiginosa do seu futebol, até impede que pense melhor o jogo em termos colectivos, mas Karagounis é um jogador de explosão, indomável, daqueles que se ri dos sistemas tácticos e, em campo, adquire várias personalidades.

Médio ofensivo, um motor criativo

Médio ofensivo por natureza, transforma-se com facilidade em segundo avançado. Não é o clássico 10 à moda antiga, longe disso. Em vez de ficar parado, traçando linhas de passe, prefere a velocidade e a procura de triangulações no último terço do terreno. Possui, no entanto, uma leitura de jogo que lhe permite assumir-se como organizador de jogo moderno, missão que desempenhou, por exemplo, num memorável jogo em Inglaterra, onde como motor central da selecção grega, infernizou Old Trafford como os seus passes longos a rasgar, capacidade de organização colectiva e poder de penetração no meio campo adversário, em velocidade e com a bola controlada. Tudo com cultura táctica, qualidade técnica em movimento e espírito lutador.

Organizador ou desequilibrador?

Para se perceber que tipo de jogador é Karagounis basta recordar que quando Rehhagel tomou conta da selecção grega, uma das suas primeiras preocupações foi aumentar o ritmo de jogo da equipa e, ao mesmo tempo, incutir-lhe maior agressividade competitiva a todo o meio campo, zona onde, teoricamente, se decidem os jogos. Para isso, fez sair Tsartas, 10 clássico, e lançou, no seu lugar, como principal transportador de bola nas transições defesa-ataque, a velocidade e o carácter de Karagounis, um criativo com agressividade que, junto de Basinas, passou como que a simbolizar os dois pratos da balança do meio campo. Ou seja, Basinas, mais recuado, era o organizador, e mais adiantado, soltando-se no apoio aos avançados, Karagounis era o desiquilibrador. Salvo as devidas proporções, é isso que pode suceder no Benfica, até porque os sistemas (4x3x3 ou 4x2x3x1) são semelhantes. Assim, no caso do onze de Koeman, Manuel Fernandes ficaria mais recuado, em tarefas de recuperação ou a pensar o jogo, e Karagounis surgiria à sua frente, já no meio campo adversário, na chamada zona de criação, a criar desiqulibrios nas estruturas defensivas adversárias. Nesse espaço, é também, um jogador muito perigoso pelo número de faltas que consegue arrancar, pois possui um drible curto desconcertante esconde muito bem a bola e quase só é desarmado em falta.

A arte do «Flanqueador»

A posição preferencial, no entanto, na qual Karagounis mais se destacou, ao longo da sua carreira é como flanqueador criativo. O segredo reside, porém, na dinâmica posicional que incute à posição, como se viu, por exemplo, durante o Euro-2004. Em vez de ir à linha como um extremo, prefere, inteligente nas movimentações, partir do seu flanco em perigosas diagonais, flectindo no terreno, para, depois, chegada a essas zonas centrais, servir o ataque em passes verticais, procurar triangulações para entrar desde trás, ou rematar colocado. Foi assim que se destacou no Panathinaikos e na selecção grega, como um flanqueador com dotes de organizador de jogo. Nessa dinâmica, também pode surgir na esquerda, como um interior armador, e, assim, baralhar as marcações adversárias com a sua polivalência posicional. Um todo-terreno do meio campo.

Em Itália, aprisionado a um flanco

O problema surgiu quando foi para Itália, onde, condicionado pela exacerbação táctica, a vida de um jogador com superior talento individual torna-se, muitas vezes, num verdadeiro tormento. Foi o que sucedeu a Karagounis, quando inserido, como ala direito, na disciplina rígida do 4x4x2 de Mancini. No pouco que jogou nunca dispôs de liberdade para fazer os tais movimentos que fazem a diferença do seu futebol, pois, por imperativos tácticos, actuou sempre aprisionado a um flanco, quase sempre o direito, pois é destro, mas sem liberdade para flectir, sendo, pelo contrário, obrigado a recuar para defender, fechando a faixa.

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