O mundo "laranja"

20 de Agosto de 2010 21:41
É a Liga do vice-campeão do Mundo! Uma viagem pelo futebol holandês, equipas, tácticas e estrelas

 

Falar num jogador holandês com cultura táctica é quase uma redundância. Porque, pela forma como a Holanda trabalha o seu jogador no futebol-base, faz com que, anos mais tarde, qualquer equipa sua, mesmo as mais modestas, exibam uma noção táctica muito evoluída. Outra questão, é o talento individual mais técnico.
Foi, mais uma vez, a ideia que voltei a ter ao seguir todos a primeira jornada da Liga holandesa. Vendo todas as equipas, nota-se um predomínio do 4x3x3 apenas com um pivot. Ainda surgem alguns extremos ou alas mais profundos a verticalizar jogo, mas, mais importante que a posição em si, é a permanente intenção de meter a bola nos flancos e dar largura ao campo, circulando jogo.
 
PSV, Ajax e Feyenoord procuram resgatar o título que, nas duas últimas épocas, fugiu para terras outrora quase ignoradas: AZ (2009) e Twente (2010). Não será fácil. No banco do Twente surge agora Preud`homme. Perdeu Stoch, o seu ala mais perigoso, mas contratou o sueco Bajrami, muito rápido, sobre a esquerda, finta menos mas é mais objectivo a procurar a área, onde, à espera do gigante austríaco Jankom surge, sobretudo, o elegante tico-tico Ruiz, estrela da Costa Rica, um craque que continuo sem perceber porque nenhum grande clube europeu vai buscar. No meio-campo, o marfinense Tioté é cada vez mais o patrão da equipa, num sector onde Braama (pivot) e Jansen (transições) são os motores da ligação com o ataque.
O AZ tem um belo central, Moreno e aposta em Martens para mexer com a equipa na criação ofensiva. O Feyenoord (extintos Maakay e Van Brockhorst) tem uma nova grande estrela para descobrir: Wijnaldum! Fixem o nome. O PSV é, tacticamente, a equipa mais híbrida. Olha-se para o onze, vê-se nele Berg e Toivonen e imagina-se um 4x4x2. Pura ilusão. Começa o jogo e Toivonen, gigante, recua no terreno e joga nas costas de Berg, mais móvel. O mais natural seria o contrário. Com Lens e Dzsudzak nas faixas, monta um sedutor 4x2x3x1, com Bakkal e o perna-longa Engelaar a mandar no meio-campo. Na estreia, fez um belo jogo em Heereveen, uma equipa (4x3x3) muito interessante com jogadores irreverentes: nas alas, os serpenteados Beerens e, sobretudo Assaidi, e um nº9 alto e rematador, Dost. A meio-campo, uma experiente dupla operária, Gridheim-Vayryren, um latera-direito ofensivo (Jammaat) e um miúdo sérvio, 19 anos, rebelde e imaginativo, Djuricic.
 
Pode não ter o mesmo dinheiro de outros territórios, mas esta ainda é a Liga do vice-campeão do mundo. A Holanda do futebol circular. E, não duvidem, visitando os seus relvados, mesmo os mais incógnitos, descobre-se onde está a base que faz a essência de jogo das maiores estrelas laranjas a jogar no estrangeiro.
 
 
 
A «marca» Ajax
 
O Ajax é uma eterna «marca» de bom futebol, mas é difícil acompanhar a passada financeira das grandes potências europeias. Vendo os jogos com o PAOK (Champions) e com o Groningen (Liga) detectei uma boa equipa com bola mas muito leve sem ela, pouco agressiva em tarefas de pressão. Por isso, defensivamente vulnerável. Em Groningen esteve a ganhar 0-2, acabou 2-2.
Joga num 4x3x3 muito móvel que, na fase de conclusão ofensiva, transforma-se em 4x4x2. O segredo está nos movimentos de Luiz Suarez. Parte desde a direita e faz constantes diagonais de aproximação ao ponta-de-lança, espaço onde surge, esta época, ex-AZ, o marroquino Hamdaoui. Combinando com eles desde trás, pode surgir Sulejmani, de 21 anos, e, como enganche, De Jong, com 21 anos, mescla de médio-ofensivo e avançado que faz muito bem as trocas posicionais com Aissati, outro miúdo a crescer, muito criativo. Lindren, Enoh e Erikssen são, neste contexto, os pontos de equilíbrio de um meio-campo que tem um motor com duas pernas sempre em alta rotação: De Zeeuw. Sempre a subir, pelos flancos, dois laterais que nunca se cansam: Van der Wiel, à direita, 22 anos, e Anita, de 21, à esquerda (o flanco onde à frente surge o inquieto Emanuelson, ex-lateral). É este o novo Ajax: uma boa equipa que só precisa aumentar o nível de agressividade sem bola (pressão) para tornar-se mais competitiva. 
 
 
Josué, motor do Venlo 
 
E, de repente, eis que, vendo o NEC - Venlo, topo com um nº10 a receber bem a bola, controlar, olhar à sua volta e passar (distribuir) bem, como médio ofensivo central de um 4x2x3x1. Quando não tinha a bola, via-se que ficava logo impaciente. Quando a recebia, a primeira sensação que dava era que recuperara a serenidade. Faz quase tudo (qualidade de passe) com o pé esquerdo. Meio baixote, beneficiava de estar a mover-se num jogo quase sem faltas (a mais dura até foi ele, num dos tais momentos sem bola, e viu logo um amarelo). Depois, lendo bem o jogo, fez dois passes de morte. O Venlo, porém, a jogar fora, perdeu justamente (1-0).
Mas, esse miúdo impaciente que jogava bem e esteve sempre nos melhores momentos do jogo, era português: Josué. Fez a última época em Penafiel, foi feito no FC Porto desde os 10 anos, que agora o emprestou, aos 19 (faz 20 em Setembro), ao Venlo. Fiquei com vontade de o ver outra vez. De preferência, menos impaciente. Porque, lapidando esse aspecto, acho que pode estar ali um jogador de qualidade.

 

 

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