O nº9 como “atracção fatal”

11 de Setembro de 2011 12:05
O zigzag de Pato, a sombra de Forlán e o íman-Ibrahimovic que atrai toda a equipa

 

É difícil definir de forma universal as tarefas específicas de cada posição, mas existem características de alguns jogadores que, por serem tão vincadas, indiciam logo um tipo de jogo ou condicionam toda a equipa mesmo que ela queira jogar de forma diferente. Pensemos no ponta-de-lança. Um jogador que, pelas suas características muito fortes, devora todo o modelo de jogo de uma equipa, é Ibrahimovic. Para o bem e para o mal. Quando ele está em campo, movendo-se, em espaços curtos, por entre os defesas adversários, funciona quase como um íman que atrai a bola para ele. Isto é, para os colegas de equipa, sobretudo alas ou laterais que sobem em posse, só vê-lo lá na frente funciona como um factor de atracção irresistível para lhe meter logo a bola mesmo que, no jogar treinado, estivesse uma intenção de construção mais apoiada.
Notou-se esse choque de conceitos em Barcelona. Em Itália, onde o ponta-de-lança possante que come todo o ataque é mais respeitado (até porque cresce desde o berço a jogar sozinho contra 6 ou 7 defesas) o futebol e o ego de Ibra é mais entendido. Sucede no Milan, jogando cada vez mais com o nariz irascível no ar.
 
Um dos pontos fundamentais num bom ponta-de-lança é oferecer a máxima profundidade à equipa em ataque organizado. Ibra não é esse tipo de nº9. Em geral, ele acompanha o movimento (mais subido ou descido) do bloco defensivo adversário. Não se importa de mover-se no meio de um bloco-baixo. Os seus desmarques pelo interior do dispositivo defensivo adversário são, geralmente, em diagonais curtas. É difícil, com esse princípio de movimentação, entrar nas costas dos defesas. É o jogo particular de Ibra no ataque do Milan, onde Pato parece jogar…outro jogo em termos de modelo. Ao invés, ele procura profundidade e desmarques circulares, dando largura e entrando nas costas dos defesas. O início do Scudetto relança este debate em torno do jogo do Milan de Allegri, a equipa mais híbrida (e indefinida) em termos de modelo de jogo no actual futebol europeu de top.  
Em termos de sistema, porém, a maior curiosidade será para a intenção de Gasperini montar o seu Inter a partir de uma estrutura de três defesas. A importância de manter a posse de bola (e, sobretudo, não a perder em momentos de transição, com o risco maior na defensiva) torna-se chavepara a eficácia desse sistema que tem laterais (Maicon) para lhe dar profundidade e, talvez, o melhor avançado do mundo a movimentar-se sem bola: Forlán. Com a sua inteligência a recuar para espaços entre-linhas deixando o outro avançado mais fixo na frente, qualquer médio-interior ou ala, descobre sempre uma solução de passe apoiado que permita manter a posse. Outra coisa são os movimentos de ruptura, nesta estrutura mais difíceis de os fazer pelo centro.
 
Na relva, porém, acredito que a Juventus possa ser mais candidata do que diz o papel e suas teorias, Tem, talvez, o melhor ala/extremo do campeonato: Krasic, imaginação em alta velocidade e foi buscar um avançado que luta tanto como joga, Vucinic. E, claro, outro eterno craque dentro do onze: Del Piero e os livres ou passes teleguiados.
Possíveis outsiders o passional Nápoles de Cavani-Lavezi-Hamsik, um trio encantado de bom futebol, no plano táctico, técnico e de remate, e a incógnita Roma de Luís Henrique, que inicia o campeonato já abalada pela eliminação da Liga Europa pelo Slovan Bratislava, que já colocou o treinador rodeado de olhares desconfiados por todos os lados. Não vejo grandes argumentos para meter a equipa entre os candidatos. A não ser, claro, a visão de mais outro eterno craque: Totti e o dolce fare niente do futebol italiano que finta e faz golos fantásticos quase jogando com as mãos nos bolsos.
 
São os primeiros traços de italianização da nova época. O ego de Ibra, o zigzag de Pato e os movimentos na sombra de Forlán. A táctica continua presente. A velocidade nunca foi muita. No meio disto tudo, um Pato torna-se facilmente a espécie futebolística mais veloz…
 

 

 

 

 

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • A estrela de Pizzuti A estrela de Pizzuti 19 de Agosto de 2011 “Velha Inglaterra”, uma causa perdida. O novo futebol inglês e o choque dos tempos em Liverpool
  • O jogo num “sopro do coração” O jogo num “sopro do coração” 19 de Agosto de 2011 Existem jogos que parecem feitos para os piores jogadores e um tormento para os melhores.
  • Atraídos pelo impossível Atraídos pelo impossível 5 de Agosto de 2011 A nova época coloca novos dilemas: como fazer para melhorar? Comprar muito ou pouco? E para que posições?...
  • Os adeptos preferem as “loiras” Os adeptos preferem as “loiras” 6 de Julho de 2011 Estética e negócio. Atracção e golos. Cabelo e futebol. Como se define um bom ponta-de-lança?