Debater uma questão que está de início mal colocada dificilmente pode levar a conclusões acertadas. A mesma posição pode ter, no mesmo sistema, diferentes funções, dependendo da intenção do treinador e, sobretudo, das características do jogador que a ocupam. Nesta perspectiva, pedir a jogadores diferentes que façam o mesmo trabalho é um erro conceptual que impede a correcta analise da sua acção no jogo. Penso nisso vendo os últimos jogos de Liedson e Nuno Gomes, ambos inseridos na dupla atacante do 4x4x2 (losango ou clássico). Na mesma posição, ambos foram decisivos, mas jogando de forma muito diferente. Porque, claro, têm características muito diferentes. Sem entender o que o jogador pode dar ao jogo, treinador, adeptos ou analistas, nunca poderão fazer-lhe uma justa avaliação.
Embora tenha crescido com o rótulo de clássico 9, Nuno Gomes é muito mais jogador do que goleador. É discutido pelas muitas oportunidades que falha, mas dois últimos golos do Benfica (ao Est.Amadora e o primeiro em Coimbra) foram a imagem perfeita do ponto forte do seu jogo. Inventa espaços no momento da recepção, guardando a bola e, depois, devolve passes de morte aos outros jogadores que surgem nas aberturas por ele provocadas. Tanto o faz na área como em movimentos de recuo para zonas entre-linhas.
Liedson tem outro pedigree. O jogo contra a Naval estava difícil, minutos finais, nove contra onze, quando uma bola despachada por Veloso sobrevoou todo o campo até cair a pique à entrada da área adversária. Liedson vai no seu alcance e quando ela desce rápida tem um gesto técnico de recepção arrepiante que coloca a bola num ápice à sua frente, dócil, pronta a ser rematada. O remate sai e o guarda-redes da Naval faz uma grande defesa. Na primeira parte, lendo um contra-ataque longo também surgira no espaço certo para, frio, tocar para o golo. Ao contrário de Nuno Gomes, que tem como ponto-forte a procura do espaço para receber a bola e tocar, Liedson emerge antes na procura do espaço para desmarcar-se e rematar.
“Corre o que não tem a bola”. Eis outra velha máxima para jogar bem futebol. Pensando nestes dois avançados, encaixa no estilo de Liedson. Com Nuno Gomes é diferente. Para se perceber o jogador que é deve ter a bola curta no pé. Depois só é necessário que ao seu redor existam movimentos adequados de quem não tem a bola para receber os seus passes.
Por isso, não faz sentido debater a questão do ponta-de-lança sem debater, primeiro, o jogador específico. Porque, no futebol, todo o jogar tem de ser feito em especificidade. Neste contexto, Nuno Gomes e Liedson, embora partindo da mesma posição, têm especificidades muito diferentes.
Com a eclosão das naturalizações, o debate também ameaça a selecção. Será importante, então, que, para além do referido, se entenda também a especificidade do jogar colectivo. Mais do que um 9 goleador, ter um 9 jogador, para tocar e passar para os médios ou extremos que surgem desde trás nos espaços. Entender o estilo para encaixar os jogadores.