Perceber o que é verdadeiramente posse de bola é o maior desafio que um jogador (e equipa) se depara no relvado. O enigma cresce porque, vendo bem, mesmo num jogo com grande posse do seu onze, na maioria esmagadora do tempo, o jogador não está, naturalmente, em contacto com a bola. Ou seja, sem rigor científico, um jogador, por jogo, só terá a bola cerca de um e meio, dois minutos. A questão, portanto, é perceber a importância e qualidade do seu jogo nos outros momentos. Porque, pode parecer incrível, mas a condição natural de um jogador em campo, na maior parte do tempo, é…não ter a bola.
O que faz então no resto do tempo, sem bola? Como segue (ler) o jogo, acompanhando as viagens (mudanças de direcção) da bola, mudando o seu lugar (sentido posicional) dentro dos espaços que limitam os seus princípios, será sempre a chave para o jogador estar bem em campo. Só assim, depois, quando a bola lhe chega perto, pode estar no sítio certo para a ganhar e decidir bem em…posse.
Esta reflexão feita para o jogador individualmente tem, também, extensão, pela inter-ligação permanente que é o jogo, ao resto da equipa. É o seu comportamento (acção/reacção) sem bola. A primeira tentação será ligar a não posse de bola a momentos da equipa a defender. É redutor. Basta reler o parágrafo anterior para perceber que o facto de estar sem bola não significa ter de estar tacticamente tout court a defender.
Imaginar, por este prisma, o jogo dos três primeiros (Benfica, Braga e FC Porto) é um bom exercício para perceber muitas das suas qualidades e defeitos. Controlar a posse do adversário é quase uma espécie de «posse mental de bola». Começar a preparar, na mente e posição, a recuperação, transição e organização. Isto é, a bola está no outro lado, mas o controlo dos espaços é nosso. É esta uma das principais forças do jogar do Braga de Domingos. O FC Porto subiu nesse contexto desde o início da época. O Benfica é o que precisa de afinar mais esse momento.
Um exemplo prático de tudo isto? Os laterais são uma boa forma de o perceber. No FC Porto, Fucile. Quando Jesualdo quer arriscar tudo, é ele o defesa que naturalmente sai, porque apesar de subir bem com a bola, é o que, sem ela, tem mais falhas de posicionamento. Repare-se que mesmo com a equipa a atacar, há o jogador que está em posse, mas os outros estão, literalmente, sem… a bola. Está neste factor inter-ligado, a sensação que, no Benfica, dá Coentrão, quando, jogando a lateral, parece, nas subidas ao ataque, chegar quase sempre atrasado, em esforço.
Esta ideia vale seja a transição rápida (como procuram Benfica e FC Porto) como apoiada (como procura o Braga). O conceito posse de bola é, por isso, traiçoeiro na avaliação directa duma equipa (ou de um jogador, entendendo-se aqui quando em…contacto com a bola). O natural, no jogo, é…não ter a bola. Mesmo para o maior dos craques. É tão claro como é impossível descodificar um jogador (e equipa) por análise estatística como se fosse um batráquio numa aula de biologia.