Ao longo dos tempos, muitos jogadores e treinadores passaram pela selecção das quinas. Dos tempos a preto-e-branco até à era das cores, o país de calções e chuteiras teve sempre, dentro do relvado, uma identidade comum, imune aos ventos do regime e seus “gatos pingados”. Um ar de fatalismo que nos persegue, de 1966 a 2004. Jogamos como nunca, perdemos como sempre. Uma frase que atravessa o tempo. Ao som das guitarras do Fado. O nosso estilo: a técnica. O nosso destino: a superioridade moral. Pode tudo isto mudar com bandeiras nas janelas? O futebol vive muito das emoções que cria, mas uma selecção, apesar da sua raiz patriótica, é muito mais do que isso. Não é fácil, porém, mudar o destino. Durante muito tempo pensou-se que a Meca estaria no chamado forte “futebolzão” estrangeiro em contraste com o nosso belo mas dócil “futebolzinho” de bola no pé. Pura ilusão. Mais do que as chuteiras, o futebol luso necessitava de mudar a cabeça. E mudou. O nosso estilo e o nosso destino. Inseparáveis.
Os jogadores de futebol estão na moda. Os penteados, madeixas, tatuagens, brincos e namoradas bonitas. Mas, de repente, a bola começa a rolar. Num relvado feito uma “passerelle”. A sombra do nosso destino volta a surgir. É preciso então que o estilo acompanhe os novos tempos. Não só na Fashion Tv, mas também nos relvados. Não acredito na teoria da renovação aplicada a uma selecção. Porque a sua composição não é feita da mesma forma do que num clube. A selecção segue as tendências de cada época, procura os melhores jogadores, a cada momento, e tenta encaixa-los no mesmo onze. Para os receber está, então, o nosso estilo. Uma filosofia de jogo feita de técnica, fintas, habilidades e contra-ataque. O desafio é mudar o destino.
Hoje como através dos tempos, as peças mais problemáticas para compor o puzzle do onze são as mesmas. Acima de todas, o ponta-de-lança. Mesmo nos remotos nos 60, o estilo do velho bom gigante Torres, alto, esguio, inestético, mas forte no jogo aéreo era a antítese do clássico nº9 português. Geneticamente, o avançado-centro latino gosta antes de recuar dois/três metros, jogar de frente para os centrais, entrar de trás, e aparecer nas costas da defesa. Estilo Nené, Manuel Fernandes, Jordão ou Gomes. Noutra vertente, Pauleta fazia muito bem diagonais de desmarcação. Nuno Gomes tem escola de movimentos como 9 puro, mas foge muito da área. Por isso, mais do que procurar núcleos em cada geração, uma selecção deve ser antes o cruzamento de várias gerações.
A reconstrução é um mito. Porque não é possível identificar um grupo geracional com essa facilidade. O mais importante é o estilo, a filosofia de jogo. Criar uma identidade na qual depois qualquer jogador, seja qual for a geração, encaixe sem grande dificuldade, sobretudo porque uma selecção ao contrário de um clube, não existe tempo para treinar formas diferentes de jogar. Por isso, no plano táctico, o reino de Queiroz não poderá fugir muito ao de Scolari. Outra questão é o lado emocional, ou seja, a equipa como estado de ânimo. Neste momento, esse é, talvez, o maior desafio de Queiroz depois da saga da bandeira na janela. Uma missão para colocar todo o nosso futebol e o edifício das selecções no trilho do futuro. Manter o estilo em campo e mudar o destino.