O novo futebol albanês

10 de Outubro de 2003
Historicamente considerada como das selecções competitivamente mais fracas do futebol europeu, a Albânia cometeu a proeza de, pela primeira vez na sua história, terminar a fase de apuramento para um Europeu ou Mundial, fora do último lugar e sem perder um único jogo em casa. A ambição se qualificarem para o Euro-2004, acabou, no final, por não passar de um sonho utópico, mas das exibições do revolucionário onze de Briegel ficou a imagem de que o futebol albanês entrou numa nova era, protagonizada por figuras cujos nomes convém começar a fixar: Lala, Tare, Beqiri, Cana, Murati, Rraklli, entre outros...
Descubra-os.
Profundamente marcada por longos anos de isolamento, a sofrida nação albanesa começa a dar ténues sinais de renascimento. Perfeito espelho social de tudo o que o rodeia, o seu futebol, que mesmo nessas décadas sombrias sempre despertou as paixões do povo albanês, reflecte esse novo estado de espirito, como provou o enorme entusiasmo vivido, durante os jogos de apuramento para o Euro-2004, nas bancadas do Qemal Stafa, em Tirana, enlouquecido em torno das novas estrelas do futebol albanês, que, ao contrário das figuras do passado, já saem para jogar no estrangeiro devido ao seu valor futebolístico, e não, como antes, através de estratégias de fuga planeadas durante digressões que terminavam com pedidos de exílio político. Durante a fase de apuramento, tacticamente quase sempre esquematizado num 3x5x2 que depois se estendia na dinâmica de jogo num moderno 3x4x1x2, esta nova selecção albanesa revelou, sobretudo nos jogos em casa, um nível de qualidade e cultura de jogo surpreendentes, tendo em conta o seu discreto passado internacional. Observando os jogos nos quais o onze albanês realizou as suas melhores exibições (contra Rússia, 3-1 e Rep.Irlanda, 0-0), constata-se que, apesar do valor técnico da maioria dos seus jogadores, a equipa só priveligia o futebol apoiado, de toque curto, a quando dos movimentos da saída de bola para o ataque, quase sempre iniciados a meio do seu meio campo. Tal resulta do facto da sua linha de cinco médios recuar muito no terreno quando perde a posse da bola, o que provoca-lhe, após a sua recuperação, muitas dificuldades em progredir no terreno com ela dominada, de pé para pé, optando assim por usar, preferencialmente, nesse segundo momento, os passes em profundidade. Neste estilo de jogo, é, na sua essência, uma equipa muito traiçoeira, parecendo quase latina, na tentativa de jogar o chamado futebol de harmónio que se abre e fecha a toda a largura do campo, graças a estes dois movimentos tácticos realizados sobretudo pelos seus quatro médios.

Meio campo: a base do 3x4x1x2 tecnicista

O ponto forte do onze albanês reside, portanto, no meio campo, sector no qual se destacam cinco figuras: Skela, um flanqueador que pode jogar em ambos as alas, há sete épocas no futebol alemão (passando por Erzgebirge, Chemnitzer, Manheim e Frankfurt), Hasi, 31 anos, muito experiente, um criativo que faz carreira na Bélgica (actualmente no Anderlecht, após pasar pelo Genk), o lutador Duro, o único elemento habitualmente titular a jogar na Albânia, no Partizani, Murati, um talento irregular, hoje no Iraklis grego, elo de ligação com o ataque, e, como estrela suprema da constelação albanesa, Altin Lala, pilar do Hanover 96 alemão, o motor e o playmaker que organiza todo o jogo da equipa. A este quinteto de excelente nível, junta-se, agora, a grande promessa Cana, 20 anos actualmente a destacar-se, pela mão de Halilhodzic, na primeira equipa do PSG. Em comum entre todos estes valores, a sua solta atitude competitiva, sem nunca se esconderem do jogo, sempre pedindo a bola, e, numa característica que desde sempre se aplicou ao futebol albanês, o seu excelente nível técnico. Um traço que, desde logo, emerge, historicamente, da morfologia do seus jogadores, essencialmente de média estatura e algo frágeis fisicamente, e da sua posição geográfica, entre a Itália e as Balcãs, o que sempre fez da Albânia uma admiradora das tecnicistas escolas de futebol latino e eslavo, suas principais referências, mesmo nos tempos de ostracismo para além-fronteiras. No ataque, mora uma interessante dupla de pontas de lança que, pelas suas diferentes características, se complementa na perfeição: o gigante Tare e o perigoso Rraklli, um veterano avançado, 33 anos, muito hábil nas movimentações, daqueles que surge em velocidade ao primeiro poste, há 11 anos na Alemanha, actualmente a jogar no Regensburg da II Divisão alemã, após passar por Freiburg, Hertha e Unterhaching.

De Dossena a Briegel

Uma das principais atracções desta Albânia reside, no entanto, no homem que, após a demissão do italiano Beppe Dossena, surge hoje como seu seleccionador: o alemão Hans Peter Briegel, velho panzer germânico dos anos 80 e que chegou á Albânia após antes apenas ter treinado, na Turquia, o Besiktas e o Trabzonspor, do qual saíra em meados de 2002. Curiosamente, apesar de pertencerem a escolas completamente diferentes, ambos, Dossena e Briegel, preconizaram o mesmo esquema de jogo: o 3x4x1x2. A Briegel caberia, porém, a coroa de glória de, no seu jogo de estreia, em Março, ter logrado o maior feito da história do futebol albanês, quando, no inferno de Loro Borici, venceu a Rússia, por 3-1. Um marco histórico, numa campanha que não conheceu qualquer derrota no jogos em casa (vitórias sobre Geórgia e Rússia, 3-1, e empates com Suíça e Rep.Irlanda, 1-1 e 0-0, respectivamente). O facto do onze ter fraquejado nos jogos decisivos realizados fora, ficou a dever-se, sobretudo, à pouca colectiva consistência competitiva, algo mais evidente na fase defensiva, um sector ao qual, apesar do carácter de Beqiri, Çipi e Aliaj, faltam, claramente, jogadores com o mesmo nível de qualidade dos que alinham no meio campo e ataque. No futuro, porém, o futebol europeu terá de passar a olhar com maior respeito a outrora menosprezada selecção Albânia.

Estrelas albanesas para seguir

Elvin Beqiri

Posição: Defesa-direito Idade: 23 anos (27/09/80) Clube: Metalurg Dontesk (Ucrania) Um excelente defesa lateral-direito, transferido esta época do KS Vllaznia para o futebol ucraniano. Pode jogar em 3x5x2 (como faz na selecção) como em 4x4x2 (como faz no seu clube, o Metalurg). Em ambos os sistemas revela leitura de jogo e bom domínio da bola e dos espaços a atacar e a defender, preferindo quase sempre jogar curto do que em bolas longas. Um belo jogador.

Lorik Cana

Posição: Médio Idade: 20 anos (27/7/83) Clube: Paris St.Germain A grande esperança do futebol albanês. Nasceu no Kosovo e fez toda a formação no futebol francês, no PSG, a cuja primeira equipa subiu este ano, tendo já sido titular por cinco vezes neste inicio de época. Atleticamente forte (1,85m. e 77kg.), joga obre os flancos. Embora sendo destro, também pode alinhar na esquerda. Mescla a técnica com a agressividade e possui uma maturidade invulgar para a sua idade. Um jogador muito interessante.

Edvin Murati

Posição: Médio ofensivo Idade: 27 anos (12/11/1975) Clube: FC Iraklis (Grécia) Um talento irregular que parece ter estabilizado no futebol grego, após aventuras fracassadas no Lilie e no PSG. Hoje, no Iraklis joga ao lado de outra figura da selecção albanesa, o médio Xaxhi. Actuando sobretudo sobre a faixa esquerda ou na zona central, Murati tem grande vocação ofensiva, integrando-se muitas vezes nas manobras dos avançados. É um jogador de rasgos, daqueles que aparece e desaparece.

Igli Tare

Posição: Ponta de Lança Idade: 30 anos (25/7/73) Clube: Bolonha (Itália) Um ponta de lança gigante, que após várias discretas épocas na Bundesliga (passando por Karlsruher, Dusseldorf e Kaiserslautern), onde o seu futebol musculado, possante e muito limitado tecnicamente, parecia feito á medida do estilo alemão, adaptou-se, com surpreendente facilidade, desde 2001/2002, ao futebol italiano. É hoje um goleador temível, impondo-se pelo poderio físico, forte no jogo aéreo e dono de um potente remate.

Altin Lala

Posição: Médio-centro Idade: 26 anos (18/11/1975) Clube: Hanover 96 (Alemanha) O playmaker do onze. Rodando sobre a bola, parece latino na forma de a fazer girar de flanco para flanco, tocando-a curtinho, recebendo e passando com precisão e qualidade técnica. Corre o campo todo. Joga e faz jogar. Está na Alemanha desde meados dos anos 90, adquirido pelo Borussia Fulda (II Divisão) ao Dinamo Tirana. Desde 98/99 é um pilar do Hanover 96, mas não vai alinhar contra Portugal.

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