O OUTRO MANCHESTER

5 de Abril de 2008
É um dos traços do jogar bem: classe em sair a jogar desde trás através dos laterais. No Manchester, em vez dos laterais, são os defesas-centrais esses apoios recuados. Descodificação táctica da transição de Manchester. + BENITEZ: O «cofre-forte» de Liverpool
Existem vários traços que definem o jogar bem de uma grande equipa. Um desses aspectos reside na classe em sair a jogar curto desde trás em posse de bola através dos laterais, funcionando estes como inicio de construção e, mais à frente, apoios na circulação de jogo. São referências que potenciam uma forma de jogar. Depois é saber o timing certo de fazer o passe sem correr riscos de perder a bola numa altura em que toda a equipa tem o chip mental na transição defesa-ataque. Esta não é, no entanto, uma fórmula obrigatória. No Manchester United, em vez dos laterais, são os defesas-centrais esses apoios recuados.
É através deles que a equipa sai quase sempre a jogar na primeira fase de construção. Repare-se nos lances em que a bola vai ter aos pés de Van der Sar e ele prepara-se para a recolocar em jogo. Nessa altura, os laterais tendem logo a avançar, fixando-se quase na entrada do meio-campo adversário. Desta forma, o guarda-redes ou opta por um pontapé longo (o que faz muitas vezes), pois o meio-campo já se encontra toda numa fase de construção mais avançada, saltando linhas, ou, nos casos em que interessa manter a posse e fazer um inicio de construção mais organizado, passa a bola aos centrais. Estes devem ter, portanto, bom jogo posicional defensivo, saber temporizar com a bola e ter qualidade de passe. A progressão é, então, quase sempre feita com um passe longo. Como este recurso salto o primeiro elos de ligação entre sectores, Ferdinand e Vidic são obrigados a ler o jogo ofensivo e decidir correctamente onde a bola deve entrar o nesse primeiro passe. Com esta opção saltam a zona de risco de perder a bola no inicio da transição. Só quando o equilíbrio enttre-linas está ameaçado no inicio de construção que um dos médios (Scholes) recua para pegar na bola e assumir ele a condução da transição desde essa zona recuada.
 
Em Roma, o Manchester fez, talvez, o seu jogo mais táctico dos últimos anos nas provas europeias. Uma ideia interpretada por três médios (Carrick-Scholes-Anderson) que pensaram primeiro em marcar espaços a meio-campo e, só depois, pensaram em marcar a diferença com a bola. Um principio de jogo que ficou claro quando a bola entrava na segunda zona de construção nas imediações da área da Roma e em vez da subida de um desses médios era um avançado (sobretudo Rooney) que recuava para pegar nela e criar desequilíbrios num espaço que, naturalmente, pertence ao médio organizador mais ofensivo. Esta consistência de, primeiro, controlar os ritmos, em vez de entrar logo para dominar o jogo no plano atacante, poderá ser chave para vencer nos relvados europeus, muito diferentes dos ingleses. Porque este é outro futebol. A pedir, outro Manchester.

O «cofre-forte» de Benitez

Tento imaginar os papeis de Benitez, seus riscos, cruzes e setas, na preparação da estratégia para um grande jogo europeu. O campo dividido em papel quadriculado mas muito diferente nas zonas de ocupação. A sua baliza vista quase como um cofre-forte. À sua frente desenha, em forma de jogadores, uma porta blindada, um sistema de segurança à prova de qualquer tipo de assalto, seja de um ladrão mais veloz ou imaginativo (Walcott ou Van Persie), seja mais alto e brusco (Adebayor). Para cumprir o plano, sem dilemas estéticos, até usa jogadores disfarçados, como colocar dois avançados mascarados de extremos (Babel e Kuyt) mas que na maior parte do tempo tem como missão encostar nos laterais, só que em vez de ser nos do adversário, é antes nos da sua própria equipa. Se não fosse treinador, acredito que Benitez seria director de segurança de um grande Banco mundial.

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