O poder dos jogadores

31 de Outubro de 2011 14:57
Exercício de futebol-total: Se abríssemos o cérebro de Balotelli como estaria dividido lá dentro?

 

Todos que admiram os rebeldes sobredotados desejam que eles alcancem algo mais do que apenas essa simples rebeldia. Balotelli é, na quinta dimensão do futebol, um desses exemplares mais fascinantes e perturbadores. O golo que marcou e silenciou Old Trafford com um remate que, num ápice, tornou o mais complexo em fantasticamente simples, hipnotizou quem sente o futebol dessa forma. Nem festeja. Imóvel, levanta a camisola e pergunta Why always me?, Porquê sempre eu?
Para responder, seria quase necessário abrir-lhe o cérebro. O que estará lá dentro? Parte substancial acredito que está ocupada pelos prezares de luxo da vida, outra por mulheres bonitas, outra por penteados exóticos (moicanos ou semelhantes), outra por aventuras loucas (pegou acidentalmente fogo à própria casa lançando foguetes da janela na véspera do jogo), outra por hip-hop, outra por carros, uma parte pequena para as necessidades básicas (comer, beber, imperativos fisiológicos, dormir) e, por fim, algures, cruzada com todas as outras, estará a do seu futebol. Não acredito, porém, que no meio de tudo, ocupe mais de 25%. Se ela dominasse o seu cérebro, acho que podia ser dos melhores jogadores do mundo. Assim, aparece apenas em relâmpagos, quase como um herói futebolístico de Star Wars.  
 
A sensação que tenho quando vejo jogar o actual Manchester City é que, após as naturais amarras tácticas italianas colocadas por Mancini no primeiro ano, nesta época os craques avançados, começaram a chegar a Maine Road e como que tomaram conta da equipa eles próprios. No derby de Manchester, Mancini teve, porém, de se meter italianamente no caminho deles e enfiou mais um médio na equipa. E ganhou o jogo, entenda-se o seu controlo táctico a meio-campo, com isso.
Não foi bem um médio puro no sentido das transições. Com bola ele vira mesmo um ala ofensivo, aquilo que talvez melhor defina o seu futebol mais vistoso. No derby táctico ele foi, porém, fundamental, atrás dos avançados na zona das máquinas mais tácticas. Falo de Milner. Estrategicamente, Mancini deixou Nasri no banco, colocou a dupla Barry-Yaya Touré mais em contenção e apostou em Milner como o terceiro médio, largando-o depois nas transições ofensivas para ser o quarto avançado extra que se juntava a Aguero, Silva e Balotelli (e depois Dzeko) na conclusão do processo ofensivo.
 
Era um 4x3x3? É impossível neste cenário desenhar um mero sistema. Nem ele teria lógica no cérebro de Balotelli, pela rebeldia. Nem do de Milner, pela inteligência a ligar sectores. Nem no de Silva, pela infinidade de coisas que pensa e faz no jogo (ala, médio-centro, avançado… corre, trava, simula, passa, arranca, remata…). Não vejo hoje muitos jogadores no futebol europeu que estejam a jogar mais do que ele.
Conclusão: a actual táctica do Manchester City é a mais atraente do futebol actual. Estranho? Não. Ela simplesmente expressa o…poder dos jogadores!
 
 

 

 

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • Os "recados" da bola Os `recados` da bola 20 de Março de 2012 O “Jardim de futebol” do Braga: Acelerando, passo a passo, passe a passe. Bom futebol sem…“pressão...
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade 15 de Março de 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?