Antes do início do Mundial, o treinador confessava não saber qual a melhor forma de montar a equipa: sistema de defesa a «3» ou com a clássica linha de quatro? Tabarez, técnico do Uruguai, acabou por dividir as opções. No primeiro jogo, com a França, 3x4x1x2. No segundo, com a África do Sul, 4x3x1x2. Poucas equipas conseguem alternar entre duas estruturas tão distintas mantendo a mesma lucidez de posicionamento. O mais delicado na mudança é, claro, a montagem defensiva, obrigando a princípios muito diferentes, sobretudo no espaço ocupado em largura pelos centrais. Lugano e Godin, que jogaram os dois jogos, sabem tudo, porém, dos dois sistemas. Tanto se aproximam, como jogam mais afastados. O segredo para o equilíbrio reside, porém, em dois médios operários que jogam à frente da defesa, Perez e Rios, ambos de contenção, recuperam e entregam sempre em segurança o primeiro passe em primeira instância (isto é, para o colega mais próximo). Nesse gesto bífido de cobertura-transição está a base estilística deste novo Uruguai: notável posse de bola. Porque, depois, não são eles que saem a jogar, subindo no terreno. Nessa altura, (depois da bola poder passar pelos laterais) quem procuram é o… segundo avançado: Forlan, no caso do segundo jogo. A inteligência de Forlan para recair para vir buscar a bola atrás e a partir dai começar a gerir a posse e circulação, o processo ofensivo, sempre com dois avançados soltos na frente (Surez mais na área e Cavani a cair mais na faixa). Uma avançado completo.
É das notas mais atraentes deste início do Mundial. O lado táctico-camaleónico do Uruguai de Tabarez. Uma dupla personalidade de sistema sempre a mesma base: posse de bola. Uma ideologia gerida por, talvez, o melhor avançado do mundo em termos de movimentação, Forlan (com e, sobretudo, sem bola). Mas, toda a equipa tem a noção solidária para assim dar linhas de passe aos colegas. Isto é, quando um jogador conduz a bola, há sempre outro que se aproxima dele, dando-lhe assim uma solução para o que fazer. Desta forma, a equipa foge aos problemas no jogo. E, serenamente, vai-lhe encontrando soluções para… jogar.
O “choque” espanhol
Primeira sensação, a Suíça derrotou a bela Espanha. Sem problemas estéticos e três médios defensivos (Inler-Hugel-Fernandes) que, muitas vezes, na organização defensiva, vestiram mesmo o velho uniforme de trincos, os suíços amordaçaram durante muito tempo o futebol espanhol. Na frente, a cultura de movimentos agressivos de Derdyok deu à equipa um poder atacante mais temível em comparação com Frei. Mas, em termos de jogo jogado, não há razão para grande frustração espanhola. A equipa perdeu jogando o seu fútbol de toque e passe apoiado. Respeitou a filosofia. Só assim, pode, pensar em ganhar o próximo. As duas equipas, porém, revelaram ambas uma grande qualidade que qualquer boa equipa (mesmo com estilos tão distintos) deve ter: todos os jogadores aceitam o papel que têm de desempenhar sem o mínimo gesto de contrariedade.
Outra coisa a reflectir sobre se este 4x1x4x1 espanhol que não necessita, por vezes, de maior poder de transformação e (como os adversários hoje já o conhecem tão bem) podendo passar a jogar mais vezes em 4x4x2 ou 4x1x3x2 (mecanizando a ligação do meio-campo com a dupla atacante Torres-Villa). Em nenhum momento, porém, essa alteração de sistema pode mexer com a filosofia apoiada de jogo.