O Barcelona de Guardiola entrou na Liga espanhola a perder em Numancia. Uma derrota que, vista no laboratório táctico, revela algumas ironias do futebol moderno e como este pode brincar com as boas ideias. Na analise ao jogo, Guardiola toca num ponto essencial: “Não soubemos atacar bem. Para isso preciso estar bem posicionado”. Nesta frase, a desmistificação da importância da famosa dinâmica. Pelo simples facto de que esta, para ser eficaz, depende antes do respeito pelo correcto jogo posicional. Sem esta referência inicial, a dinâmica (de circulação de bola e movimentação interliga dos jogadores) perde sentido em campo.
O sucesso do modelo de jogo de Guardiola passa muito por atrair o adversário para zonas que lhe provoque desequilíbrios na organização defensiva. Por isso, é necessário que a equipa consiga, primeiro, uma boa circulação de bola e, depois, através da progressão em posse, forçar o adversário a perder o sentido posicional no momento ao sair dos sesu espaços para tentar roubar a bola. É a chamada provocação com bola. Difícil de fazer, porém, perante um adversário muito rígido posicionalmente em termos defensivos, em bloco baixo e que, no fundo, não responde a provocações. Esta intenção do jogo de Guardiola notava-se, no inicio, na forma como o defesa-central Marquez saia a jogar desde trás, tentando desde logo saltar linhas, só que o Numancia não fazia essa primeira zona de pressão, recuava o bloco, fazia o campo muito pequeno e, assim, retirava espaços à equipa tecnicamente mais forte de posse de bola. Sem espaços, o Barça deixou de alargar o campo, algo agravado com a troca de um pivot (Touré) por um médio-segundo avançado (Hleb). O problema estava nas falhas de jogo posicional. Guardiola tentou apenas modificar a dinâmica ignorando a raiz da sua eficácia.
No sistema, o 4x3x3 (ou 4x2x3x1) do Barcelona só ganha vida atacante quando consegue jogadas de dois para um perto da área adversária. Contra equipas tão densas em campo pequeno, essas situações nascem muitas vezes de trocas posicionais. Este é, no entanto, um problema do modelo de Guardiola pois não passa por este principio a sua forma de jogar. Pretende posicionamento mais fixo, alargando, no limite, o raio de acção do jogador dentro do que ainda se pode chamar do seu espaço natural. Jogadores como Messi, Eto`o, Xavi, Iniesta ou Hleb tem um jogar mais solto posicionalmente pelo que a eficaz circulação de bola (procurando cansar o adversário) esfumou-se na anarquia em que o jogo acabou por cair.
Mais do que uma questão de boa filosofia de jogo, o problema do Barça de Guardiola é descobrir como ela poderá ser aplicada no defensivamente militarizado futebol do presente.