O principio do «patinho feio»

July 15, 2008 12:00 AM
Além da táctica e da técnica, treinar é fazer um jogador crescer emocionalmente.

 

Gosto de olhar para uma equipa como um microcosmos social. O balneário, a capela sagrada onde se expressam e partilham intimidades. Diferentes personalidades, diferentes formas de agir e reagir. O tímido e o extrovertido. O receio e a coragem. Tudo passa por criar códigos de comunicação partindo da consciência das diferenças. Ao treinador-psicólogo, a capacidade para gerir emoções. É natural criarem-se grupos. Num balneário como numa turma do secundário ou numa grande empresa. Porque todos nós criamos maior empatia com umas pessoas do que outras. Não há drama nisso. O objectivo passa por evitar que esses “pequenos grupos” cresçam e se tornem como ghetos privados do “grande grupo”. É o quebrar do elo de ligação da comunicação global.
 
Há, no entanto, personagens mais fáceis do que outras. Identificam-se como “problemas” os que cultivam a diferença no grupo. Mas, reparem como nesta última frase coexistem duas palavras que mostram como essa descodificação colectiva é apenas o tal microcosmos social aplicado ao futebol. As palavras: diferenças e problema.
 
No futebol, como na vida, existe sempre a irresistível tentação de as ligar. Como nas fábulas ou nos grandes clássicos. O patinho feio que cresce complexado e renegado pelos irmãos (o grupo) que o achavam sem a beleza indispensável para ser um deles. A ovelha negra que é sacrificada na Ilíada de Homero para selar a guerra de Tróia. Nenhum deles era um problema. Eram apenas diferentes. Ou melhor, seriam um problema apenas para a cabeça dos outros.
 
Num balneário de uma equipa também existem essas representações futebolísticas do patinho feio e a ovelha negra. No final, o patinho feio vira um cisne e até é o mais belo de todos. A ovelha negra tem o dom, como explica o ensaísta Nassim Taleb num livro que explora a mesma ideia mas com o cisne negro, de lidar com “o impacto do altamente improvável”. Pensemos em futebol. Imaginando o treinador, no inicio da época, lendo as personalidades do grupo. Estarão lá estas. De forma mais ou menos clara. Não existe fórmula única de lidar com elas. Tudo passa pela capacidade entrar na cabeça de quem está do outro lado. É esse o grande segredo do sucesso da comunicação.
 
Leio que Makukula foi mal recebido pelos adeptos. Não acreditam nele. Sai do carro e confronta-os. Nos treinos supera-se e faz golos. Há aqui algo da lógica do patinho feio neste inicio de percurso. Quaresma fez dois novos piercings. Embarca para o estágio de olhos no chão. Já não queria estar ali. Há aqui algo da ovelha negra que se perdeu. Ou entristeceu. Depois de tanto tempo sem perceberem o impacto imponderável que metia no jogo.
 
O radar emocional do treinador deve ser capaz de captar todos estes mundos particulares. Para além da táctica e da técnica, treinar também é fazer um jogador crescer emocionalmente. Nem todos viram cisnes mas detectar e cativar o patinho feio e a ovelha negra é um passo decisivo para o sucesso da equipa (grupo). É, afinal, saber lidar com o altamente improvável.
 

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