
Em Cardiff, Beckham jogou à frente da defesa, como o médio centro mais recuado, lançando os ataques com fabulosos passes em profundidade de precisão notável. Para Beckham jogar nessa posição, porém, Gerrard e Lampard tiveram de cair mais para o lado, como médios interiores, sem poderem se soltar, como tanto gostam de fazer, em termos ofensivos, pois nas alas estavam os extremos Wright-Phillips, à direita, e Joe Cole, embora sempre com tendência para flectir, à esquerda.
Isolado, na frente, Rooney era obrigado, muitas vezes, a recuar no terreno para recuperar a bola e permitir as diagonais dos alas. Nesta dinâmica, o onze nunca revelou profundidade ofensiva, quer no centro (com Gerrard e Lampard presos), quer as alas, pois faltaram os passes e as subidas em apoio dos médios. Limitaram-se a receber os passes longos de Beckham.

Contra a Irlanda, quando se esperava, com o regresso de Owen, o retorno ao 4x4x2, Eriksson surpreendeu ao esquematizar um 4x3x2x1, desta vez com Beckham caindo um pouco mais para a direita, mas sempre a querer flectir, pois a faixa estava ocupada por Wright-Philips, extremo puro. Na frente, em vez de uma dupla velocista Rooney-Owen, o técnico sueco encostou Rooney á esquerda, ficando Cole, um jogador crucial em termos tácticos e habituado a fazer o lugar, no banco. Inseridos nestas referências posicionais contra-natura, o sistema tornou-se tacticamente numa anarquia e nunca conseguiu desenhar um circuito preferencial de jogo. Depois da sofrida vitória em Gales, a derrota com a fraca Irlanda, colocou Eriksson na berma do precipício.
A questão que se coloca é o porquê de abandonar um sistema, 4x4x2, com que jogava, com êxito, desde que assumiu o comando da selecção inglesa? Tudo nasceu após a goleada sofrida num particular com a Dinamarca (4-1). As novas experiências tácticas, legítimas e necessárias, não devem, no entanto, serem feitas em jogos decisivos.
Depois de longos anos estruturado no seu tradicional 4x4x2, Eriksson resolveu, na fase crucial do apuramento, mexer nesse solidificado edifício táctico. Aproveitou a lesão de Owen e, contra Gales, desenhou um inovador 4x5x1 com várias novas nuances, sobretudo no meio campo, onde reside o grande problema. Qual a melhor forma de distribuir, nesse sector, em termos de dinâmica posicional, Lampard, Gerrard e Beckham, contemplando, ao mesmo tempo, a ligação com o ataque? Dois jogos, duas respostas, dois equívocos.