É costume, discutindo sobre treinadores, dizer-se que “sim, tem qualidade, mas não para treinar um grande!” Em geral, é uma afirmação que não tem a ver com a competência. Pelo contrário. É algo que depois nem se consegue explicar bem. O que é então? A imagem menos sedutora? O discurso sem classe? O sistema? Não saber tratar com jogadores de primeiro nível? Os sócios não querem? Raramente surge uma resposta com sentido para essa recusa. Mas ela existe.
O futebol português é, neste sentido, uma fogueira da competência de muitos treinadores. Por razões diferentes. Se pensarmos nos três grandes, vemos que, muitas vezes, a questão foi colocada nestes termos. Em dois planos. No interno, muito menos no FC Porto, porque a «estrutura» tem uma força incomparavelmente maior para blindar qualquer treinador, diluída no Sporting (sobretudo nos últimos anos com a idiossincrasia especifica de Bento), mas permanente no Benfica. No plano externo, existem treinadores que vivem com essa opinião a pairar sobre eles. Por exemplo, Jesus, Cajuda ou Carvalhal, cada qual pelas suas razões (estilo ou imagem). Nas reuniões de gabinete ou de café.
Pegando no exemplo mais falado, a possibilidade de Jesus ser treinador do Benfica nunca esbarrou na avaliação da sua competência. É fácil concluir que foram antes algumas das razões colocadas acima que ditaramm a exclusão. É perturbante. Porque não faz sentido. Mas, afinal, que características deve ter um treinador para ser considerado treinador de equipa «grande»? A dúvida nasce da incapacidade de encontrar a palavra-chave para responder a essa questão.
Se procuram um curriculum longo cheio de vitórias, esqueçam. No nosso futebol, isso é impossível. Não por causa dos treinadores, mas pela tal fogueira que submerge competências. No plano humano, as relações com outro tipo de balneário. Com egos maiores, a exigir outro nível de personalidade. Porque não acredito em bons balneários em clubes grandes, tal o choque de egos gigantescos que existe nos jogadores dentro dele. Acredito num pacto de balneário. Nem é preciso falar muito, ou gritar. Basta a forma de olhar. Seja com as estrelas como com os outros. Numa palavra: Personalidade (assim mesmo, com um «P» muito grande). Esta é que a palavra-chave para perceber, e dizer, se este é ou não um treinador para um «grande».
Depois, claro, saber o seu projecto de jogo, mas antes disso poder surgir há o tal factor que o emoldura e lhe dá pilares emocionais. Filosofia de jogo e vida. Isso não depende de como veste ou fala. Depende de como treina e se relaciona com as pessoas. Jogadores e… dirigentes. Nessas alturas, é preciso ser «grande» para treinar um «grande». Os jogadores do presidente são óptimos, mas para jogarem na sua varanda. Aqui, joga a minha equipa, as minhas ideias. Ouvir todos, claro, mas decidir, sem medo. Ignorar a imprensa. Porque só assim, com personalidade forte, pode, depois, encarar os momentos em que os resultados não surgem. Mesmo sem vestir bem ou falar bonito.