Mais difícil do que escrever a história é, a certo ponto do trajecto, ter de a reescrever. Costuma dizer-se que o caminho se faz caminhando. Para uma grande equipa de futebol, isso também é verdade. Ao longo dos tempos, o Benfica construiu a sua história num caminho de vitórias. Até que, a certo ponto do trajecto, a “odisseia encarnada” chocou com o tempo. A norte, emergira outra realidade, o futebol conhecera novas expressões de poder, discurso e método, o país mudava e novos adamastores nasciam. O mundo benfiquista teve dificuldade em entender essa mudança de tempo, dentro e fora das quatro linhas, o país, a vida e o futebol. Órfão das referências do passado que o fizeram grande, o Benfica enfrentou a travessia do deserto sem uma bússola futebolística que o orientasse na (re)descoberta do seu caminho. A cada passo que dava, as páginas da última noite mágica, em 94, tornavam-se cada vez mais amareladas. 16 anos. Pelo meio, um italiano com um frasco de veneno à cintura ainda acendeu, por instantes, a chama do título, mas durou pouco. Cada vitória do título de 2005 era mais parecida a um jogo da luta pela descida. Nessa vitória não estava o verdadeiro ADN encarnado. Ele é feito de um jogo com a baliza nos olhos, o ataque como forma de vida.
A cada arranque de um extremo, o estilo de Di Maria, o Dumbo esguio que parece ir levantar voo pelo flanco esquerdo, o adepto levanta-se da cadeira. A cada corte de um defesa-central, a força de Luisão ou a alma guerreira de David Luiz, o Estádio ergue-se porque sabe que, a seguir, surgirá o ataque. E o golo. Nesse sentido, 2010 recolocou o futebol benfiquista no trilho certo da sua história. Reescreveu-a após longos anos em busca da identidade perdida. Com nome de Messias, Jorge Jesus entendeu esse momento da história benfiquista como só um treinador português, pela vivência diária da nossa realidade e causas da sua mutação, poderia conhecer. Dessa forma, desde o primeiro dia, tocou nos pontos certos, balneário e relvado, discurso e jogo.
Essa capacidade de saber como reescrever a história nasce muito antes do chamado “mestre da táctica”. No fundo, deu-lhe as bases emocionais (a mística) para a construção mais científica (o modelo de jogo). Do grito para o relvado, mascando pastilha elástica, ao 4x1x3x2 e o posicionamento cirúrgico nas bolas paradas.
Os “velhos” jogadores renasceram e os “novos” acenderam mais luzes em campo. Primeiro a ideia de jogo. Depois, os jogadores para ela. Assim chegaram Javi Garcia, para ser a “âncora” do meio campo, aquele «1» solitário que surge na descrição do sistema táctico, Ramires, um “corre-caminhos” incansável do meio-campo, e Saviola, um coelho em forma de avançado que, metaforicamente, também parece arrastar quem o persegue (os defesas adversários) para um poço, no qual depois surge Cardozo para iluminar a jogada com o golo. Ao lado deles, Di Maria ganhou asas, David Luiz voltou à sua “casa táctica” natural no centro da defesa e até Aimar recuperou a respiração táctica e física.
Neste ponto da história tudo parece pacifico. O que mais impressiona, porém, em toda esta reinvenção da história é o papel do treinador. Em geral, num grande clube, sucede o contrário. Ou seja, é o clube que, reconhecendo-lhe valor ao contratá-lo, dá-lhe asas (a grande oportunidade) para a sua carreira. Aqui, sucedeu quase o inverso. Foi o treinador que levantou o clube. Isto é, tornou-se maior do que a “estrutura” até se confundir com ela e hoje ser quase impossível imaginar o clube (e a equipa) sem o seu carisma, táctico e humano. O Benfica Séc.XXI resgatou o código genético das suas raízes mesclando-as com as estratégias de poder que, dentro e fora do relvado, os tempos modernos ergueram. Tudo isto demora tempo a solidificar. Nesse sentido, este título é apenas a primeira página de um novo capitulo que, nas próximas épocas, ainda terá muito para escrever. Até ser história.
ONZE BASE E SEUS SIMBOLOS
LUISÃO
Gigante, a sua presença no centro da defesa intimida e assusta a bola e os avançados adversários. Luisão nunca treme. Joga simples. Não quer é ver a bola por perto. Não é um poço de técnica, mas entra forte em cada lance dividido. Dá no osso e na bola, grita com todos, colegas e adversários. Quando sobe nas alturas é um jogador em forma de “arranha céus. Corta bolas e faz golos. Um líder.
DAVID LUIZ
Um “guerreiro” que disputa com alma, coragem física e qualidade técnica, cada lance em que entra. Depois, com a bola, arranca com ela, porque, no fundo, ele não se satisfaz em ser apenas defesa-central no jogo. Quer ser mais coisas. Quer conduzir como um médio e atacar como um avançado. Depois, regressa em velocidade. Pela relva ou pelo ar, impõe o seu futebol de carácter. Tem tudo para se tornar num dos melhores defesas-centrais do futebol mundial.

JAVI GARCIA
Não aparece nos resumos mas é fundamental para equilibrar tacticamente a fórmula 4x1x3x2 de Jesus. Nessa equação táctica, ele é “âncora” do sistema. Corta simples, dá curto, segura a bola e a posição, está no caminho para o corte e no sítio certo para fazer o primeiro passe no início de transição defesa-ataque. Um futebol “confidencial”, fisicamente forte, que nunca deixa a equipa tirar os pés da relva.
DI MARIA
Mais do que correr, parece que voa pelo seu flanco esquerdo. Passada larga, finta curta que, de repente, vira larga e estica o jogo, dando-lhe profundidade. Finta e dribla. Inventa no um-para-um e ganha espaços decisivos peto da área. Depois, é preciso no passe. Truculento, provoca o adversário para, depois, logo a seguir, passar por ele com um sorriso quase trocista. De repente, parece que voltou ao futebol de rua. O espírito é mesmo esse. Mas num grande estádio.
SAVIOLA
Um jogador tacticamente fundamental no processo ofensivo. Quando recua, conecta com Aimar e liga-se ao meio-campo. Quando avança, conecta com Cardozo, e liga-se ao ataque. O melhor Benfica desta época foi aquele que jogou durante o melhor período (físico e táctico) de Saviola. Confundiu adversários quando se escondia na chamada zona entre-linhas á entrada da área. Claramente, este campeonato teve um “coelho” a mais. E isso fez toda a diferença…
OS NUMEROS DO TÍTULO
Há 20 anos que o Benfica não marcava tantos golos numa época. 78 bolas no fundo da baliza. Só recuando até 90/91, quando se marcaram 89 golos. Mas, atenção, nessa altura o campeonato tinha 20 equipas. Eram mais jogos, 38. Agora, foram apenas 30. Tacuara Cardozo, a girafa paraguaia, foi o melhor marcador fiel ao destino (e obrigação) de um ponta-de-lança dentro de uma equipa. Para atingir essa marca, teve a seu lado um coelho veloz que o entendeu na perfeição, Saviola, que deu-lhe muitas bolas ao jeito do seu explosivo pé esquerdo, e que também fez muitos golos (11), sendo o segundo melhor goleador.
Mas, apesar dos golos, Cardozo ainda não é o ponta-de-lança goleador que une os elogios de todo o “mundo benfiquista”. Continuam a dizer que é meio lento, que falha mais golos que marca. E, claro, há ainda a história dos quatro penaltys falhados em momentos decisivos do jogo.
Cardozo não é, de facto, um jogador esteticamente elegante. Alto e esfguio, parece um Alicante gigante quando recebe a bola e, de braços arqueados, tenta dominar a bola, quase sempre com uma perna só em ápio. Mas, nessa altura, embora não ganhe um lance em velocidade, cobre muito bem o espaço, levanta a cabeça e faz um excelente passe. Ou seja, tem técnica e visão de jogo. Apenas não fabrica espaços. Precisa que outro jogador (e a equipa) os fabrique para ele. Por isso, a importância complementar de Saviola. Depois disso, espaço aberto e a bola a cair no seu pé esquerdo, o momento seguinte é, quase sempre, um remate explosivo para a baliza.