Durante três semanas foi como a pátria se suspendesse para avaliar o seu estado de saúde. A profunda depressão em que o futebol mergulhou a Velha Gália, escureceu, num ápice, uma construção estética que durara muitos anos a erguer. Thierry Henry sentado quase meio deitado no banco, com o gorro enfiado na cabeça até às orelhas e o fato de treino fechado até cima para proteger o frio. Olhar perdido, de lado para o treinador que estava de pé perto de si ou, vazio, na direcção do relvado. Uma imagem que, perto do fim do jogo contra o México, com a equipa perdida em campo, simboliza, na perfeição, a passagem da França por este Mundial. É difícil explicar o fracasso com argumentos tácticos. O buraco negro em que caiu o futebol francês é muito mais profundo.
A Argentina inventou quase outra equipa contra a Grécia e nesse exercício apareceram outros dois jogadores de quem gosto muito. Pastore e…Palermo. De Pastore não é de estranhar. É daqueles médios que trata a bola com carinho mas ao mesmo tempo diz-lhe o que tem de fazer com firmeza. E, depois, quando estou a pensar “só é pena ser um pouco lento…”, ele aumenta de velocidade (ou aumenta a velocidade do jogo..) e a jogada desenha-se com classe. E Palermo? Pois, a verdade é que acho que Palermo nem está destinado a ser jogador de futebol. Está destinado a ser herói. Recordem aquele golo ao Peru no último minuto da qualificação, sob chuva torrencial, quando a bola parece que veio ter com ele. Os adeptos nem sabem bem o que fazer. Porque segundos antes estão a assobiá-lo e, de repente, no instante seguinte, ele faz o golo que salva jogo. Em resumo esta é a história da vida dele. Contra a Grécia, agora numa atmosfera calma, outro lance do género. E a bola para a baliza.
Se tivesse, porém, de eleger um jogador para esta primeira fase não teria duvidas: Forlan. É um avançado, um médio-ofensivo, um enganche, um organizador ou um definidor? Penso que, neste tacticamente evoluído Uruguai de Tabarez, ele, nos momentos certos, é um pouco disso tudo. Mais do que um relógio, um pace-maker criativo. Não se espantem. No futebol, isso existe mesmo. É Forlan.
O deserto de Samaras
Último jogo da Grécia. Tinha feito as melhores exibições com o trio Salpingidis-Samaras-Gekas. Reehagel pensa na estratégia. Mas, a precisar de ganhar para passar, tira quase todos os avançados (só ficou Samaras) e lança Papastathopoulos, não para jogar, mas para… não deixar jogar, marcando individualmente Messi por todo o campo. Perdeu, claro. Foi a última aparição de Rehhagel. O espelho perfeito da identidade que marcou os seu reinado helénico. Um projecto (estilo e táctica) que se perdendo na erosão do tempo. É perturbante, porém, chegar à fase final de um Mundial e ainda ver uma marcação individual tão primitiva.
Samaras sozinho na frente é uma metáfora do que ele próprio tem sofrido na pele. Porque acho que ele é muito mais jogador do que quase todos pensam. Move-se muito bem e (apesar de muito alto) tem técnica e remate. Rehhagel metia-o muitas vezes encostado a uma ala. Agora meteu-o sozinho, desterrado na frente. E ele lutou (e jogou) da mesma forma. É incrível como jogou pouco no Manchester City e mesmo agora no Celtic os adeptos não gostam dele (quase nem o suportam). Apesar disso, ele continua impassível. Entra e…joga bem. Ou será que é dos meus olhos e só eu é que vejo isso em Samaras?