Acredito que cada jogador tem o seu habitat próprio, aquele onde respira melhor. Encontrar o seu melhor local num relvado é um dos maiores desafios para um futebolista. É quase como aplicar o pensamento socrático ao futebol: “conhece-te a ti próprio!”. O treinador também tem um papel decisivo nessa busca.
Recordo sempre o que se conta de Di Stefano, quando se estreou num jogo de experiência. Orsi, que o tinha descoberto, convidara o treinador da equipa principal, Carlos Peucelle, para o ver. “Mira como joga o pibe!”. Era um River-Huracan e Di Stefano fez um jogo fabuloso. Golos, fintas, arranques. Um jogão, até que no fim Peucelle virou-se para Orsi e perguntou-lhe: “Sim, muito bem, mas este chico, em que lugar joga?” Orsi sorriu, apenas disse “como onde joga? dentro do campo!”.
O problema é que nem todas as confusões nascem da genialidade. Na maior parte dos casos, nasce da dificuldade de entender que a melhor posição para qualquer jogador é onde ele possa fazer mais vezes aquilo que faz bem e seja menos vezes obrigado a fazer as que faz mal. Parece simples, visto assim. Pura ilusão, porque esse conceito tem de ser integrado, depois, no contexto da equipa e ideia colectiva de jogo.
O campeonato tem dado muitas pistas para este debate. Aimar no Benfica ou Rodriguez no FC Porto. Quique e Jesualdo, com ideias de jogo diferentes, foram-lhes buscando vários espaços. De inicio, Rodriguez como extremo, Aimar como avançado. Definições que confundiam o ADN do talento de ambos. No fundo, estavam longe do seu habitat. E, ao mesmo tempo, também longe da equipa e do jogo.
Os últimos jogos devolveram a melhor face aos dois jogadores. Basta ver quando eles surgem em grande plano na televisão. Semblante mais solto, outra confiança, respirando melhor. Rodriguez como médio transportador, Aimar como médio centro ofensivo. Ambas as definições emergem com o decorrer do jogo. Ou seja, no inicio, Aimar parece segundo avançado num 4x4x2. Rodriguez parece extremo-esquerdo num 4x3x3. O jogo começa e Aimar recua no terreno. Ocupa uma zona nas costas do ponta-de-lança e à frente dos médios-defensivos, e o onze ganha um organizador de jogo com criatividade.
No Dragão, Rodriguez em vez de ficar na prisão da faixa, passou a procurar espaços mais interiores. Recua para pegar na bola e arrancar com ela, soltando-o o mais forte do seu futebol, que, em vez da criatividade, está no transporte de bola. E o jogo colectivo cresce muito. Nas duas equipas. Conhecendo o jogador, percebe-se a equipa.
Esta ideia de habitat próprio não choca, no entanto, com a ideologia de “jogador de equipa”. O segredo é cada jogador reconhecer os espaços onde se encontra. A sua cultura de jogo é fundamental neste processo de busca. Até eles próprios pensarem nos movimentos dos colegas antes dos seus. Um estado avançado de jogar, como também Di Stefano, já estrela do Real Madrid, dá as pistas para buscar.
Foi quando uma vez, antes do inicio da época, disse ter estudado uma nova jogada: “levo a bola, passo-a rápido ao Puskas e desmarco-me pelo centro. Então, o passe que devia ser para mim, vai para o Rial que está livre de marcação pois os defesas ficaram pendentes de mim. O Rial vai encher-se de marcar golos assim!”.
Pensando o jogo para lá das suas botas, Di Stefano imaginara uma jogada em que ele, tirando o toque inicial, nem tocava na bola! Saber estar em campo é sempre a maior arma para um jogador negociar a sua melhor posição na equipa.