A táctica é o jogo, a técnica é a bola. Agora, metam a bola no jogo e, respeitando-a, a técnica torna-se na…táctica. As equipas que trocam melhor a bola são, portanto, as que têm maior inteligência/capacidade táctico-técnica. Barcelona e Arsenal, parecem, nesse sentido, equipas da mesma linhagem. Não é bem assim. Será na técnica. Não será na táctica (isto é, na ocupação dos espaços). Por isso, não são iguais na forma de jogar. São bem diferentes e os últimos jogos da Champions (goleadas a Panatinaikos e Sp.Braga) confirmaram isso.
Ambas fazem, sem dúvida, o chamado campo grande a atacar e profetizam um futebol de toque e construção em passes curtos. Estamos aqui, ainda, sobretudo no domínio da técnica. Quando depois reparamos na amplitude periférica deste projecto, vemos as diferenças. O campo grande (distância entre a primeira e ultima linha, da defensiva à ofensiva) permanece mas enquanto o Barcelona joga em largura, isto é, coloca sempre dois homens abertos nas alas (Pedro e muitas vezes Messi), circulando a bola por todo o campo até dar-lhe profundidade pelas faixas, o Arsenal não dá, por princípio, a mesma largura ao seu jogo no processo de construção e penetração ofensiva.
Nesse momento, os seus (falsos) alas, como Nasri e Arshavin, procuram antes zonas interiores, onde vão cruzar-se com Fabrègas, ocupante natural dessa zona, para então construírem (com igual técnica, passe curto e tabelas) as jogadas de ataque. As faixas ficam então quase desertas e só são ocupadas pelas subidas dos laterais (sobretudo Sagna). O tiki-taka do Arsenal é praticamente todo pelo corredor central (revejam os seis golos ao Braga) num jogo de apoios frontais muto forte.
É caso único no futebol europeu de top uma equipa jogar desta forma, renunciando quase à profundidade pelas faixas, para metê-la só no corredor central onde coloca, nesse processos, quase seis jogadores a toda a extensão do campo: tudo parte de um pivot, Song, depois Wilshere sai para o jogo com a bola, ela entra em Fabrègas, médio dentro de segunda linha, junta-se-lhes, então, Arshavin e/ou Nasri, vindos das alas, e mais à frente buscando diagonais curtas de desmarcação, o ponta-de-lança Chamakh. Portanto, 6 jogadores num corredor central, em toques curtos confundindo defesas com dificuldades em encurtar espaços que, por si só, já estão curtos, mas sem com isso incomodar os intérpretes do jogo porque todos eles têm a arma da…técnica. O campo grande permanece, mas em vez de ser largo como faz o Barça (que abre e entra também pelas alas) faz um campo…estreito. Ou seja, transforma, pela táctica e pela técnica, o relvado ofensivamente numa linha recta.
Rubin Kazan e os três centrais
Tentando controlar um jogo que previa mais físico, o Rubin Kazan, campeão russo, surgiu em Copenhaga num sistema de três centrais que partiu tacticamente a equipa. No fundo, perdeu o meio-campo, visto que o 3x4x2 inicial tornou-se, quase sempre, com o recuo dos laterais a fechar, numa espécie de 5x2x3. O «2» do meio-campo era o duplo-pivot Noboa-Murawski que nunca se soltou para apoiar o ataque, mais habituado às rotinas do 4x4x2, sistema preferencial com que o técnico Kurban Bediebv ganhara a Liga russa. Nesses momentos de transição defesa-ataque, a distância entre o meio-campo e o ataque ficava então excessivamente longa, visto os três avançados (Martins-Kornilenko-Carlos Eduardo) ficarem muito adiantados. Com os pivots muito presos, apenas Carlos Eduardo recuava um pouco para pegar na bola. Uma estratégia estranha, que tirou do onze o ala Kasaev, e procurou sobretudo fechar o corredor central defensivo frente a um onze dinamarquês que joga, em 4x4x2, sem avançados fixos.
O Rubin Kazan foi a única a equipa a utilizar um sistema de defesa a «3» deste tipo na primeira jornada da Champions. Com isso, perdeu as rotinas de bom futebol que mostrara em jogos anteriores e retirou do jogo o seu mais perigoso avançado, Carlos Eduardo. Sem um médio centro ofensivo claro, este tipo de sistemas dificilmente sai do papel.
Os “duplos-pivots” de Valência
A devoção dos treinadores espanhóis pelo duplo-pivot continua intacta esta época. Muitas vezes, essa opção (quase sempre num 4x4x2 clássico) desequilibra a relação entre as faixas e o centro, mas, noutros casos, garantindo a complementaridade, pode dar interessantes soluções de jogo. Um bom exemplo disso é o Valência de Emery.
O segredo, mais do que o sistema (4x2x3x1) está nas características dos jogadores que compõem o tal duplo-pivot defensivo. Tem várias soluções para o lugar, mas a melhor surgiu na Turquia, contra o Bursaspor (0-4!): é a dupla Alberto Costa (argentino) – Topal (turco). Enquanto Topal fica mais posicional e joga simples, Costa está cada vez mais um médio box-to-box moderno: corta, recupera, sobe, remata. Outra dupla possível (que alinhara no jogo anterior contra o Santander) é Abelda-Banega. Uma dupla claramente mais de contenção, com menos saída. E existe, ainda, Manuel Fernandes. Todos fazem parte da corte dos duplos-pivots de Valência, um exemplo de bom futebol. Assinatura principal: Tino Costa.
A equipa é «10+1» ou «1+10»?
Para ele, Guardiola não era um treinador, era um filósofo. Ibrahimovic, um craque por definição, tornou-se, nas últimas épocas, um problema por natureza. A diferença pode ser explicada por uma fórmula matemática. Estranho? Nem por isso. É que em muitos destes casos, quando existe no grupo um jogador de valor indiscutível mas problemático (na táctica e no carácter), penso muitas vezes que a solução está em perceber se a equipa é «10+1» ou «1+10». Ou seja, qual é o seu princípio de construção. Se o treinador continuar a deixar ser o «1» (o tal craque problemático) o princípio da equipa, todo o seu processo de construção (jogo e perfil) está invertido.
Ibrahimovic é o tipo de jogador que gosta de se sobrepor à equipa ao ponto dela ser «1+10». Cabe ao treinador inverter a fórmula. Porque os maiores craques percebem a lógica dessa sua existência mais luminosa dentro da equipa, o tal «10+1». Permanece a individualidade que se destaca, mas sem nunca sufocar a equipa (grupo e jogo). O Milan com Ibra será «10+1» ou «1+10»?