Como o clarão de um relâmpago na escuridão da noite, o Senegal iluminou, subitamente, o cenário do futebol africano e lançou sobre Dakar uma onda de incontrolavel euforia: Os Leões de Taranga, como é tratada a selecção (Taranga, em Wolof, dialecto senegalês, significa bem vindo) estão no Mundial, após longos anos de sonhos desfeitos.
Como em muitos outros países africanos de colonização francófona, a emigração de muitos jogadores senegaleses para França, impediu, durante muito tempo, a evolução do futebol do Senegal, que após participar pela primeira vez em 1970 na fase de apuramento para o Mundial, não conseguia, apesar de gerar jogadores de grande valor e nível técnico, formar uma selecção capaz de se impor no cenário internacional. Durante anos desfilaram pelos clubes franceses grandes talentos do Senegal. Foram os casos, entre outros, de El Hadji, Louis Gomis, Christophe Sagna e o talentoso Souleymane Camara.
Seria apenas a partir de finais dos anos 80, sob a orientação do treinador francês Claude Le Roy, um caçador de talentos africanos que trouxe para a Europa figuras como Weaha e outros, que o Senegal começou a surgir no cenário internacional, nomeadamente com uma famosa selecção onde estavam as figuras como Boubacar Sarr, Roger Mendy, Lamine Sagna, Thierno Youm e o grande símbolo do futebol senegalês, o avançado Jules Bocande, estrela do futebol francês, com cabelo á Bob Marley e as cores do Metz. Ainda hoje ele é visto com um autêntico Deus por todo o povo senegalês. Inspirados no seu talento, surgiram outros nomes como Souleymane Sané, Roger Mendy, Victor Ndiaye, Adlophe Mendy e Mamadou Diallo.
Apesar de sedutora, a equipa falhava sempre nos momentos decisivos e o melhor que obteve foi o 4º lugar no CAN/90. A maior desilusão aconteceria, porém em 1992, quando o CAN se organizou no Senegal. Ansiosa, a equipa caiu nos quartos-de-final, derrotada pelos Camarões, quando todo o país, louco com as suas novas estrelas, apostava numa vitória inédita.
Após este fracasso, Claude Le Roy saiu e Bocandé, entretanto retirado, ficou á frente da selecção até á chegada em 1995 do alemão Peter Schnittger, há 30 anos no futebol africano, desde que em 1968 assumira a selecção do Ghana. No Senegal, Schnittger, 60 anos, reconstruiu o moral do grupo e baseando-se nos jogadores a actuar na Europa, sobretudo no trio atacante Ndiaye Keita e Camara lançou as bases para o futuro da selecção senegalesa. A sua aventura terminaria, porém, em Setembro de 2000, quando após dois jogos na fase de apuramento para o Mundial-2002, seria afastado do cargo. Era o inicio do glorioso ciclo de Bruno Metsu.
BRUNO METSU:
EM BUSCA DO TESOURO AFRICANO

De cabelos compridos, no banco, ao lado de Bocandé, o francês Bruno Metsu lembra um explorador branco do século passado em terras africanas. Embora seja a antiga estrela a dar a maioria das ordens para campo, a forma efusiva como Metsu vive o jogo, em plena comunhão com os seus companheiros de banco, jogadores e adjuntos, diz bem da personalidade e da corrente que se estabeleceu entre ele e todo o Senegal futebolístico. Mas, afinal, quem é este homem que ao qualificar o Senegal para o Mundial logrou a talvez maior façanha que um treinador europeu alguma vez atingiu em África?
Depois de uma modesta carreira como jogador, Metsu, 51 anos, treinou várias equipas de segundo plano em França, como Beauvois, Sedan, Vallence e Lille, onde teve, em 92/93 a sua única experiência na I Division, acabando no entanto por não evitar a descida. Aventureiro decide então rumar a África, em 1999, surgindo mais tarde como treinador da Guiné. Ao mesmo tempo, como muitos treinadores franceses radicados em África, também Metsu se tornou numa espécie de caçador de talentos, trabalhando sobretudo com o Sedan, seu antigo clube. Em Outubro de 2000, por fim, seria convidado para seleccionador do Senegal, onde com o apoio de Bocandé e de Mama Sow, director técnico nacional, antigo seleccionador e preparador físico com Claude Le Roy, acabou por fazer história, levando pela primeira vez, o Senegal á fase final de um Mundial.
O BECKENBAUER AFRICANO
E OS GOLOS DE DIOUF

Apesar de muitos jogadores senegaleses, a jogar em França, adoptarem a nacionalidade gaulesa, deixando assim de poder jogador pelos Leões de Teranga, - como no caso de Patrick Vieira, nascido em Dakar - o Senegal, um enorme viveiro de talentos por descobrir, conseguiu formar um onze capaz de surpreender toda a África. Após durante a era Schnittger ter baseado o seu jogo na postura defensiva, com Metsu a equipa recuperou a sua vocação ofensiva, adquirindo a imagem de um onze que gosta de assumir riscos para ganhar.
Mas, na base da nova atitude estiveram, sobretudo, os novos elementos convocados por Metsu: Hadji Sarr, do Lens, e Lamine Diatta, do Rennes. Outros, que antes se recusam vestir a camisola da selecção, foram convencidos por Metsu a regressar. Casos de Salif Diao, do Sedan e Habid Bèye, do Strasbourg. Com estes novos elementos, num sistema base de 4-4-2, Metsu construiu a equipa do milagre, impulsionada pelos golos do ponta de lança Hadj Diouf, jogador do Lens, um gigante tecnicista entre os defesas adversários, autor de oito golos na fase de apuramento. Entre as outras estrelas a jogar em França, destaque para Henry Camara (Sedan), Moussa Ndyane (Sedan), Ferdinan Coly (Lens), Omar Daf (Sochaux) e para o líbero Aliou Cissé (PSG), entre outros.
Ausente de quase toda a campanha de qualificação para o mundial, esteve no entanto, vitima de lesão, a grande estrela do actual futebol senegalês: o defesa central e, até ficar de fora, capitão da selecção Pape Malick Diop, jogador do Strasbourg, para onde fora com Claude Le Roy que o apelidava de Beckenbauer africano. Todos anseiam pelo seu regresso para tornar a equipa ainda mais forte. Fixem bem estes nomes, porque eles são os próximos diamantes a fazer brilhar o magico futebol da chamada África negra