Recuando até fins dos anos 80, quando os italianos dominavam a Europa e se começou a congeminar as babilónicas equipas da actualidade, observamos que cada clube tinha um bloco claro que influenciava os respectivos estilos de jogo. No Milan, o bloco holandês, como Gullit, Van Basten e Rijkaard; No Napoles, o bloco sul americano, com Maradona, Careca e Alemão; e no Inter, o bloco alemão, com Matthaus, Klinsmann e Brehme. A moldura táctica ainda era ditada pelos italianos e os estrangeiros faziam, realmente, a diferença. Hoje é quase uma força de expressão falar-se em futebol italiano, mas algumas referências ainda permanecem imutáveis. Tacticamente, o Calcio esteve sempre na vanguarda, mas muitas vezes, ao longo da história, ficou refém da sua ideologia defensiva e perdeu o domínio das quatro linhas. Neste contexto, ficou célebre o titulo conquistado em 1956, pela Fiorentina de Benardini e do genial extremo brasileiro Julinho, utilizando em antecipação o 4x2x4 que, dois anos depois, o Brasil tornaria famoso no Mundial-58, para onde não se qualificaria a Itália, amarrada ás tácticas defensivas do seleccionador Alfredo Foni, que recusou o 4x2x4 por, dizia, não dispor de um jogador com a arte de Julinho.
Aos 36 anos, Roberto Baggio decidiu ainda continuar a jogar mais um ano. No Brescia, naquela que será a sua época de despedida, a sua forma de jogar é, como foi durante toda a carreira, uma ironia por entre o dramático mundo táctico do futebol italiano.
O Calcio, deixou, no entanto, de ser um futebol de uma só ideia. Hoje, apesar da inspiração defensiva, existem diversas filosofias de jogo, sobretudo protagonizadas por uma nova casta de treinadores como Del Neri, Baldini, Spaletti, Mancini e Prandelli, entre outros, adeptos de um estilo menos conservador. As grandes equipas continuam, porém, fieis a uma linha mais tradicional. É o caso do Inter, com Hector Cuper, que já não é campeão há 14 anos, desde 88/89, época imortalizada pelo fulgor de Matthaus e da qual o pequeno génio alemão diz recordar sobretudo os gritos de Trapattoni desde o banco sempre que pretendia avançar no terreno: “Calma, Lothar, deixa-te ficar atrás. É mais seguro!”, gritava a velha raposa, hoje á frente da squadra azzurra, um reduto, em qualquer época, impenetrável a novas tendências.
Os Scudettos históricos
e o Ferrari de Platini

Repassando a história, em busca de títulos memoráveis, detemo-nos no triunfo do Cagliari em 69/70. Era a equipa do defensivo Scopigno, onde brilhava o terrível goleador GiGi Riva. Em 84/85, o pragmático Bagnoli monta em Verona, com os panzers Brigel e Eljkaer, um onze de ferro que, em força, conquista sensacionalmente o Scudetto. Em 90/91, surgiu a bela Sampdoria de Boskov. Formavam parte dessa sedutora equipa jogadores como Vialli, Mancini, Lombardo e Toninho Cerezzo. O limite á utilização de estrangeiros facilitava a gestão do grupo por parte dos treinadores, quer em termos técnicos, quer em termos de balneário. Três sensacionais conquistas de três equipas hoje longe do topo, num país dividido entre a riqueza do elegante Norte e a bijuteria do Sul pobre e desordenado. Uma realidade social e económica que, através dos tempos, se espelhou no futebol, sobretudo desde os anos 30, quando os clubes do norte, morada do poder financeiro e político, começaram a desenhar um poderio sobre o Sul que, com excepção do Nápoles de Maradona, na segunda metade dos anos 80, sempre se manteve. Como grande símbolo desse poder secular, emerge a lendária Juventus do clã Agnelli, por onde, ao longo das épocas foram passando jogadores de sonho, desde a dupla Charles-Sivori, nos anos 50, ás maravilhas de Platini e Boniek nos anos 80. Desse tempo conta-se que, no primeiro ano, quando as exibições de Platini estavam longe de entusiasmar, o Avvocato Agnelli desabafou num jornal: “Estou triste! Platini ainda não me deu um golo de livre...” Ao que Platini respondeu que também ele andava triste, pois o Avvocato também ainda não lhe dera nenhum Ferrari. No jogo seguinte, com o placard 0-0 perto do fim, a Juventus ganha um livre á entrada da área. Platini ajeita a bola, cobra a falta, folha-seca... golo e explosão no velho Communale! Na manhã seguinte, Platini acorda cedo. Abre o jornal enquanto toma o pequeno almoço e logo lhe salta á vista um titulo: “Agnelli cumpre o prometido: Ofereço um Ferrari a Platini!”