O sexto momento do jogo

11 de Novembro de 2008
Ou melhor, será antes o sexto sentido sobre o jogo. Em que pensa um jogador em campo quando a bola está longe?

 

A bola está longe e o jogo continua. Para lá dos quatro momentos (organização defensiva ou ofensiva e respectivas transições) ou até do quinto momento lançado por Jorge Jesus (o lance de bola parada) aquele tempo será quase como um sexto momento para quem está jogo. Em que pensa o jogador nessa altura? Na nova casa, na namorada, na compra de um carro. Talvez. Poucas vezes, vendo os jogos e a forma como entram depois nos lances, fico com a sensação que estivessem a pensar no jogo. Ou, pelo menos, na melhor forma de abordar o lance seguinte. Mais do que pensar no jogo, falta-lhes pensar sobre o jogo. As melhores equipas são as que estão melhor nesse sexto momento. Porque são as que pensam mais o jogo mesmo antes de cada jogador intervir directamente nele.
 
Conta Pelé que um dia perguntou a Nilton Santos: “O que passa pela cabeça da gente na hora de uma jogada?” Nilton pensa e responde: “Tem nego aí que não passa nada”.“Pois, na minha, passa um filme de longa-metragem!”, confessa Pelé.
 
Essa longa-metragem deve ser o filme do jogo todo. Saber a razão de ser da equipa jogar de determinada forma é o grande passo para quando a bola chega perto agir em conformidade com a lógica do plano colectivo de jogo. E falo só da chegada da bola, porque o jogo, esse, deve estar sempre próximo na mente. Nunca se deve afastar do jogador mesmo com a bola do outro lado campo.
 
Nem sempre é fácil controlar esse pensamento. Para lá da predefinição do gesto táctico, há o controlo emocional sobre o jogo mesmo com a bola longe. É nessa altura que o jogador ganha ou perde confiança para o próximo lance que vai abordar. Entramos aqui no campo mental do jogo. O FC Porto será, esta época, uma das equipas que melhor permite teorizar sobre este sexto momento em todas estas vertentes. Em Alvalade, os grandes planos de Pedro Emanuel foram o melhor instrumento para esse exercício. Ele tem uma longa-metragem na cabeça. As suas reacções logo após sofrer o golo onde calculou mal como abordar aquela bola maldosa que vinha do céu devorou-lhe o pensamento. O jogo recomeçara, a bola já estava longe e ele continuava a vociferar sozinho. E notava-se depois quando entrava no lance seguinte. Como querendo ajustar contas com o jogo. Ou melhor, com a sua intervenção no jogo.
 
A bola distancia-se e pressente-se que alguns jogadores receiam pensar no jogo. Sentem mais o seu peso, do que a confiança em partir para o próximo lance. Por isso, Lucho é tão importante. Porque está sempre no controlo do sexto momento. Hulk inventa um jogo só para si. Será outra forma de viver o sexto momento pois quando a bola vai ter consigo, o plano de jogo torna-se uma linha recta para a baliza. Por entre todo este jogo de pensamentos, as equipas, e seus jogadores, defendem, atacam e fazem as respectivas transições. Só dominando o jogo, táctica (saber como tentar resolver a jogada) e mentalmente (confiança em entrar nela) é que todos esses momentos fazem sentido. Porque é disso mesmo que trata o sexto momento. O sexto sentido sobre o jogo.
 

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