O síndroma de “Zelig”

18 de Junho de 2011 18:58
O último sinal de desistir da nossa própria consciência é quando achamos não sermos capazes de evitar fundirmo-nos com a multidão

 

O princípio da história é a natureza humana. A mais estranha de todos os seres vivos. Uma série de características que descobre no futebol um território ideal para exprimir as suas multidimensionais máscaras, infinitamente dispersas, no mesmo local, em momentos diferentes. É quando a bola pára de rolar que as coisas se tornam mais claras. Porque, nesse momento, já não existem fintas, remates e defesas. É o jogador, sozinho, perante o mundo, o destino, e a pior das ameaças, perante…si próprio.
O átrio de uma igreja (um casamento) não é, por definição, um palco futebolístico. Não? Pode ser muito mais do que isso. Nas últimas semanas, porque o amor é mágico (kool hipnoyse dixit), casaram-se os guarda-redes de Benfica e Sporting. Roberto e Rui Patrício ambos perante o seu destino. Na vida. Ambos, também, perante, o seu presente. No futebol (que, claro, também se funde com a vida). A lista de convidados dos noivos era extensa e incluía todo o plantel com quem conviveram durante a época. No lado leonino apareceram quase todos. No lado encarnado, apareceu apenas…um. O indiscutível…Balboa, ainda da era Quique, que dispensado há um ano ainda busca colocação para jogar. Num ápice, Roberto teve de defender 22 remates emocionais da marca do penálti. Fora do relvado, sem hipótese de defesa.
 
Toda a sua época podia ser contada em forma de documentário. Mascarando todos o que o rodeiam como uma projecção de Zelig, fascinante personagem de Woody Allen com a bizarra capacidade de se transformar, a qualquer altura, na pessoa em que estivesse por perto. Assim, durante o filme, ora foi um abastado republicado de Boston, ora um músico de jazz, um cirurgião a operar, um escocês de barba e kilt… Fez todos os tratamentos para resolver o problema. Vários psiquiatras. Nenhum resultava, mais eis que surgiu um, mulher, que começou a fazer avanços brilhantes, até, um dia, confessar que, afinal, não é…psiquiatra, mas apenas finge ser. Até ao fim, ele ainda seria explorado como uma atracção de feira para acabar casado com a psiquiatra falsa.
Penso que em nenhum outro relvado, em nenhum outro momento da época, ambos os guarda-redes tinham jogado um jogo tão sincero. A velha ideia do futebol como expressão da teoria do êxito e fracasso como grandes impostores (Kipling dixit). Na cena final, as dezenas de Zeligs que os rodearam toda a época ora se aproximaram, ora se afastaram deles.
 
Até hoje, o conteúdo futebolístico de gestão humana de Roberto e Rui Patrício não foi adequadamente avaliado porque todos se concentram sobretudo em aspectos técnicos. Ambos estão muito relacionados. O último sinal (consequência) de desistirmos da nossa própria consciência é quando achamos não sermos capazes de evitar fundirmo-nos com a multidão ou a simples pessoa que está a nosso lado.
O mercado no defeso é um paraíso de compra e venda de jogadores. Fazer escolhas não implica sempre a necessidade de uma justificação séria. Mas, num tempo em que se é um símbolo, num futebol sem…símbolos, elas não vivem sem esse escudo protector. Doze anos depois de Benfica, Nuno Gomes foi dispensado. Claro que esta opção técnica é da maior legitimidade do clube e sua equipa técnica. Indiscutivelmente. Mas, nesta altura, ao nº9 renegado, já não existe resposta possível. A inabilidade em lidar com o assunto durante a época (evitando até que ele falasse mais do que 98 minutos e 5 golos) é que simboliza o alçapão que existe sempre por baixo de qualquer relação futebolística. Mesmo a dos símbolos. 
 
Na história de Roberto já não existem espelhos, fugiram todos. A intenção técnica de dispensar Nuno Gomes já era da época passada. Em suma: o treinador (o futebol) como Zelig.
 

 

 

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