O “tanque” e o “burrito”

18 de Junho de 2011 18:48
Estranhos heróis do fútbol argentino. O onze de Gareca, o treinador saído das profundezas da alma

 

O seu nome e figura, Ricardo Gareca, alto, magro e com a face comida pela vida, não são muito famosos internacionalmente, mas no futebol argentino ninguém se esquece dele como o jogador que, nos anos, 80, fez nascer o mito…Maradona. Estranho? A explicação é simples. Foi ele que marcou o decisivo golo do empate (2-2) no último minuto do jogo contra o Peru que valeu o apuramento da Argentina para o Mundial 86! Apesar desse feito, Gareca nem seria, depois, convocado para a fase final. Até hoje, confessa, sente alguma amargura por isso, mas os seus feitos agora como treinador, de cujas capacidades também alguns desconfiavam, está a relançá-lo no fútbol argentino. Depois de sofrer um abalo forte com a eliminação da Libertadores na meia-final com o Peñarol, a conquista do título nacional reabilitou a imagem de El Flaco Gareca, chegado em 2009 após ser campeão no Peru. O seu Vélez é, mais do que só o título, uma equipa que joga bom futebol.
 
Tem uma filosofia de jogo agressiva, com dois volantes (base do 4x2x3x1) que roubam bolas, chocam e saem a jogar. Depois, tudo muda quando a bola entra no trio da segunda linha e, com técnica e velocidade, surge outro futebol no plano técnico. Os protagonistas, na primeira linha, são Zapata e Razzotti (o doble 5, como lhe chamam os argentinos). Na segunda linha, são Moralez, o nº10 zigzagueante do centro, e nas alas, alternando, Alvarez e El Burrito Martinez, enganche rompedor desde trás. Faz golos e passes de morte. Como ponta-de-lança, El Tanque Silva, fantasma no Beira-Mar em 2005, herói na Argentina (depois de levar o Banfield ao título, a conquista no Vélez).
Com laterais atentos a defender e a fazer ligação com o ataque (Diaz, à direita, e Papa, na esquerda) bem escudados, nas dobras, por centrais fortes e experientes (como Seba Rodriguez), a equipa nunca perde equilíbrio táctico nas transições. O segredo do sucesso (e poder de sedução) da equipa reside, porém, na mescla de estilos dos seus jogadores: responsabilidade táctica no meio-campo defensivo + criatividade técnica no meio-campo/processos ofensivos.
 
Numa análise global, este Vélez e o Estudiantes são, actualmente, as duas equipas mais fortes do futebol argentino. Tacticamente cultas e com bons jogadores, embora poucos com transfer para a Europa. Para perceber melhor essa dificuldade, basta citar que a outra equipa que lutou pelo título, foi o Lanús, onde a estrela, com um jogo feito de temporizações e arranques/passes de classe, foi Valeri (que falhou no FC Porto). O ritmo argentino e (in)disciplina táctico/posicional é, porém, diferente. Não é questão de qualidade, é questão de ritmo e estilo de jogo.
 

 

 

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