A evolução da vida coloca em patamares diferentes dois factores que, embora aparentemente conflituosos, não concebem a sua existência um sem o outro: o humano e a tecnologia. Através dos tempos, a humanidade avançou por diversas razões. O que nos aproxima uns dos outros é a emoção. Não é a razão. No início do ano, segui duas provas que expressam de forma sublime aquela união lutadora de factores: o Dakar e a Volta ao Mundo em vela sem escalas. Duas provas em que se conjuga o maior esforço humano possível com as melhores tecnologias de ultima geração, juntas na luta contra a natureza, calor e desertos (no Dakar) tempestades e os perigos do mar (nos barcos).
A história da humanidade, os seus avanços, sempre se fez por entre estas diferentes visões que alguns seres humanos conseguem unir. Ao lado disto, o futebol (e o futebolista) parecerá demasiado terreno, no sentido da dimensão dos seus feitos. É tudo demasiado humano no tratamento dos seus protagonistas. Respeita, porém, também toda aquela lógica de união ou, noutros casos, procura forçar a sua cumplicidade, mesmo quando todo o mundo parece conspirar contra.
Estamos mais no domínio das ciências do comportamento humano. O jogador, entenda-se o seu talento, evolui muitas vezes em luta contra si mesmo. Descobrir a melhor forma dele se expressar é um processo quase sociológico de educação do talento. Nem todos, claro, necessitam passar por esse quadro laboratorial de formação/crescimento no qual que nasce o chamado tecno-futebolista.
A conexão Caxinas-Madrid tem, metaforicamente, muito deste choque e união destes dois mundos. Fabio Coentrão, desde o berço, a sinceridade rude, as madeixas louras, o esforço quase sempre parecendo ultrapassar limites e a rebeldia natural confundida na forma como respira. A certo ponto, tudo isto parecia conspirar contra ele. Até alguém entrar dentro da sua cabeça e com a tecnologia sensorial futebolística, mudar-lhe o chip mental. Porque durante muito tempo, quem conhece o talento em bruto de Coentrão, pensava sempre que o via jogar como com outra cabeça que grande jogador poderia estar ali.
Quatro anos depois, regressa a Espanha, onde estivera em 2007, no Saragoça (como moeda de troca na compra de Aimar) sem jogar e visto como um ser humano lunático com quem nem se podia falar. Regressa com estatuto galáctico. Entre esses dois tempos, esteve a construção tecnológica do seu talento (nas palestras de Carlos Brito e Jesus), o lado humanamente científico do futebol, choque com a realidade, feito de palavras e acções de treinadores de carne-e-osso, todos presos no seu imenso deserto de solidão.
Mourinho recebe agora um Fabio Coentrão que é uma espécie de Avatar (figura criada à imagem e semelhança do usuário, que ganha um corpo virtual) daquele que jogava há poucos anos em Vila do Conde, não aparecendo para treinar quando os treinos eram muito cedo e ameaçavam tareias físicas. Está muito à frente da geração SMS. É um futebolista 3-D de última geração, susceptível de actualizações constantes. Na forma de jogar (do extremo rebelde que fintava e esbracejava se não lhe passavam a bola ao lateral responsável, veloz a atacar e preciso a defender), na personalidade lapidada (ou submersa por outras superiores) ou até, no penteado e madeixas louras mais ou menos espetadas.
O futebol táctico dos Avatares chegou à corte de Mourinho. De um ringue das Caxinas para o relvado do Bernabeú, quase como um Dakar ou uma Volta ao Mundo em vela. Alma e corpo. Espírito e matéria. Bola e táctica.