O tempo dos divórcios

18 de Dezembro de 2008
De Sabry e Mutu até Adriano ou Quaresma. Mourinho e a cabeça dos jogadores numa bandeja.

 

No balneário convivem vários tipos de jogadores. Ou melhor, de seres humanos. O líder, o operário, o rebelde, o introspectivo, o animador e até o delator espião. Fazer destas diferentes formas de estar na vida uma equipa é a missão do treinador. O contrário é o divórcio entre o grupo, primeiro, entre o treinador e o jogador, depois. É este segundo ponto que muitas vezes devora as competências. Quando o ego do jogador choca com o do treinador. Tudo isto pode suceder de várias formas. E cada treinador reage de forma distinta. Costumo dizer que os incentivos devem ser sonoros e as reprimendas discretas, mas há treinadores que fogem a este principio e, sem pestanejar, jogam com a cabeça do jogador. Porque do outro lado, a assistir, estão os adeptos para quem esses jogadores são os heróis em que depositam todo o seu orgulho e confiança. Quando essa conexão emocional falha, os treinadores hesitam entre várias atitudes. Há quem os proteja. Há quem os exponha ainda mais.
 
Mourinho festeja muitas vezes os golos como se fosse um ponta-de-lança. Correndo enlouquecido ou derrapando de joelhos no relvado. Tem feito uma carreira fantástica entrando na cabeça dos jogadores. Em Itália está, por enquanto, mais discreto, nos festejos. Permanece, porém, imutável na forma de gerir os casos de divórcio. Desde Sabry que demorava a apertar as botas ou Mutu que, com problemas extra-futebol, ficava calado num canto do balneário enquanto outros festejavam até à insolência de rebelde amuado de Adriano ou o caso táctico-mental especial de Quaresma, Mourinho torna os sermões sonoros e num ápice coloca a cabeça do jogador numa bandeja. Cada caso terá as suas razões mas há aqui uma linha de comportamento comum. Os adeptos costumam apoiar este tipo de atitudes. Recordo que o alvo costuma ter pouco mais de vinte anos e pouco tempo antes foi mareado pelo êxito, através da imprensa, adeptos e até o próprio treinador. O divórcio que o treinador torna então numa espectáculo pública inverte toda a ordem dessa relação e o jogador fica exposto à sentença popular. O treinador passa, então a planar sobre o balneário e, claro, o próprio jogador. E ninguém o pode atingir. Já não é futebol.
 
O caso de Quaresma é, por isso, mais complexo do que parece. Tal como seria o de Mutu. Mourinho faz de muitos jogadores super-heróis. Vê-lo a festejar golos com Drogba ou Ibrahimovic fazem logo dele melhor treinador. Vê-lo a amarrotar Quaresma ou Adriano não fazem dele pior treinador. Fazem dele um special sobrevivente em tornar os divórcios do futebol, no balneário ou no campo, num monólogo que coloca o jogador quase na porta de saída. E quando se está nesse ponto já não há nada a dizer. Para quê?

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