O treinador e a sua identidade

April 13, 2011 9:45 PM
A mensagem de Mozer: Treinar uma equipa “pequena” obriga a jogar como uma equipa… “pequena”? Claro que não!

 

Uma equipa é a expressão de uma ideia de jogo. Tem as suas afirmações pessoais com bola (os jogadores) mas, na base, está a identidade que se quer construir e transmitir. O treinador é o responsável por essa impressão digital. Pode variar a atitude, não a identidade.
Vai crescendo, porém, a tese contrária: jogar e treinar de forma diferente conforme a equipa onde se está. Ou seja: estou numa equipa pequena, baixo o bloco, defesa reforçada e jogo longo para avançados rápidos. Estou numa equipa grande, subo a defesa, médios com a bola e ataque organizado. Não faz sentido. Quanto muito será uma estratégia para…sobreviver. Outros preferem uma estratégia para…viver. E ganhar ou perder com isso.
É óbvio que nenhuma ideia é imutável. Terá margem de maleabilidade (adaptar-se a diferentes realidades), mas nunca ao ponto de se tornar, futebolisticamente, num ser ideologicamente gelatinoso, o tipo de treinador que vive conforme o que o rodeia e não conforme as suas ideias.
 
O princípio da identidade é ter o seu modelo de jogo preferencial, ser conhecido por ele. Aplicar essa filosofia passa por saber modelar esse modelo de jogo. É diferente de o alterar. Clubes diferentes pedem processos de…construção diferentes (processo de treinar forma de jogar) nunca ideias de jogo diferentes.
Se a maior parte do tempo a equipa não vai ter a bola, deve começar a treinar organização/momentos sem ela. O pensamento-mater, porém, é imaginar um posicionamento que contemple a bola como primado do nosso jogo (e não o de perseguir o adversário). Ocupar/abrir espaços e não só fechá-los. Para quando recuperar a bola, jogar como se ela tivesse sido sempre nossa. Porque na cabeça dos jogadores esse momento-chave do modelo (a tal identidade) esteve sempre presente.
 
Estava a discussão neste ponto (sobrevivência reactiva contra identidade construída) quando surge a Naval de Mozer: defesa alta a fazer o fora-de-jogo, linhas subidas, meio-campo a pressionar alto, alas e ponta-de-lança. É curioso ver como durante os jogos, os comentadores passam 90 minutos a criticar esta forma de jogar, os riscos que implica, auguram que a qualquer momento vai afundar-se, os terrenos que deixa livres em vez dos que ocupa, etc.
É invulgar, de facto, ver uma equipa pequena a querer jogar como um grande. Mas treinar uma dita equipa pequena obriga a jogar como uma equipa…pequena? É obvio que não. Se queres ser grande pensa em jogar como eles. Se queres continuar a ser pequeno, corre as persianas da tua casa táctica. Pode ser que num contra-ataque ou bola parada um golo caía do céu. Não faz sentido. Tudo depende da identidade (assumindo uma ideia, modelo) que queremos ter. Ou não…
 
Tenho pena de até agora não ter comentado um jogo da Naval para poder em 90 minutos explicar o que deve ser uma equipa pequena a querer jogar futebol afirmando uma identidade. O mais certo até é a equipa descer, mas, fora dos três primeiros, a aparição da ideologia de jogo de Mozer foi a melhor coisa que aconteceu a este campeonato.
 

 

 

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