Perceber um jogo, passa muito por perceber o melhor local onde se deve colocar os jogadores nas três dimensões do relvado. Detectar as correctas posições e donos dessas diversas casas tácticas é a grande missão do treinador. Quase como meter vida dentro da táctica. Se conseguir descobrir essa fórmula (perceber o jogo) o treinador percebeu da melhor forma a sua equipa. Esse entendimento, porém, pode mudar com o decorrer da época e as características dos jogos. Porque as equipas, como os jogos, passam por diferentes estados, formas e expressões. Só através desse inteligente manejar dos espaços e jogadores, é possível fugir ao alçapão futebolístico em que muitas caem na fase decisiva da época. Nessa altura, fala-se então na questão mental (motivação ou nervosismo), física (cansaço ou recuperação) e táctica (a melhor ou pior estratégia) para tentar explicar os resultados (vitórias e derrotas). Jesus e Domingos, Benfica e Braga, disputaram a meia-final da Europa League com esse mapa para preencher. O triunfo quase sobrenatural do onze bracarense é, sobretudo, um triunfo da consciência e da visão mais correcta de todo este cenário.
O Braga percebeu sempre os melhores caminhos em cada 90 minuto para a sua estratégia. O Benfica raramente detectou as estradas mais indicadas para os seus jogadores. Ver aquele que é hoje o seu jogador mais perigoso (mais motivado e melhor fisicamente), Fabio Coentrão, a jogar toda a segunda parte, quando a equipa mais precisava de marcar para virar o jogo, colocado a mais de 40 metros da baliza adversária, foi o mais forte indício dessa falta de entendimento do que o seu jogo (a equipa) necessitava. É pacifico dizer que, em condições normais, a casa táctica ideal de Coentrão é hoje a de lateral-esquerdo, mas no momento e nas circunstâncias em que jogo e equipa caíram nesta fase da época, só o seu adiantamento para extremo permitiria resgatar a sua melhor dinâmica táctica, recuperar a motivação e driblar a questão física. Sem esse elemento, o processo ofensivo da equipa (comprometido por lesões, Salvio, e quebras físicas, Saviola) caiu num poço sem fundo até desaparecer por completo do jogo. Foi em cima dessas bases que, com outra percepção das necessidades e capacidades actuais da sua equipa e diferentes jogadores nas diversas posições, o Braga montou a sua estratégia. Sem ilusões de superioridade. Apenas com convicção da realidade. Isto é, táctica de carne e osso contra um sistema de moinhos de vento.
Ao mesmo tempo, surgia Mossoró, o médio-ofensivo surpresa, rápido e truculento que Domingos lançou como um intruso na anterior pacatez da casa táctica de Javi Garcia. Uma afirmação de maior personalidade estratégica. Quando o Benfica, a perder, quis reagir, tinha na cabeça o plano indicado, mas não tinha em campo os jogadores para o fazer. Pior, nem sequer os tinha nas melhores posições. Coentrão, o último extremo de um sistema táctico que só ganha vida com pelo menos um jogador desse tipo (capaz de lhe dar profundidade ofensiva), estava preso por uma corda no sector…defensivo.
Para Domingos abriu a luz do sonho utópico de uma Final europeia bracarense. Jesus, perdido entre tempos tácticos, mentais e físicos, fechou-se na sua caverna emocional. Esta vitória do Braga, é um triunfo da visão e sacrifício táctico. Esta derrota do Benfica, é quase, numa adaptação futebolística do titulo de um livro surrealista de Tim Burton, como a “melancólica morte táctica do treinador-ostra.
Sem sombra
de pecado
Sem sombra de pecado, o FC Porto atingiu, com a serenidade típica dos Dragões a passear pela brisa do começo da noite, a Final da Europa League. Perdeu em Villarreal (3-2) numa altura em que já tinha o jogo… ganho (1-2). Era um jogo sem força para entrar na história. Daqui a alguns anos, só se irão lembrar do primeiro, o dos quatro golos de Falcao. Mas, mesmo num jogo para cair rapidamente no esquecimento, manteve em campo o jogador mais em risco: Moutinho. Após tantos jogos, este seria o ideal para parar. E, depois, um cartão afastava-o da Final. Mesmo assim, Villas-Boas, no polo oposto do treinador-ostra, não fechou o pensamento e manteve o seu médio mais motorizado em campo. O nível físico e mental em que a equipa se encontra dá-lhe essa margem táctica de risco.
Disputar a Final com o Braga não terá a mesma intensidade emocional que chocar novamente com o ego ferido benfiquista, mas desenha outros desafios. Em campo, essa batalha pode ser muito mais equilibrada (e incerta) do que podem pensar porque, embora com armas (entenda-se jogadores) muito diferentes, ambas as equipas (e treinadores) são hoje as que melhor percebem o que um jogo necessita. E, por isso, colocam os todos os jogadores (melhores e piores) nas…melhores posições. Só com esta percepção, uma equipa consegue qualidade vida futebolística ao longo das diferentes fases da época. Nessa dicotomia, FC Porto e Braga vivem hoje num mundo totalmente oposto ao do Benfica. Questão física? Questão de inteligência.