Roma, “A Cidade Eterna”. Três mil anos de história contemplam o seu sumptuoso passado, o berço da latinidade, onde, através dos tempos, o homem buscou inspiração para construir as bases da civilização moderna e, com o seu legado cultural moldou o Estado de Direito de muitas nações. Com o tempo, nas ruínas do seu Império milenar, a cidade, fundada por Rômulo e seu irmão Remo, amamentados por uma loba, adquiriu outros contornos. A atmosfera histórica permanece mas nas suas ruas a civilitá romana, do Coliseo á Fontana di Trevi, espelhavam-se novos tempos. Por entre um universo histórico, o futebol construiu uma imagem elegante e altiva. A superioridade moral latina de ganhar jogando bem, isto é, tratando a bola com estilo literário, escrevendo passes e mais passes com o perfume da técnica. Na história do futebol, não existe, também, melhor fonte de inspiração para as futuras civilizações com bola. Durante muito tempo, porém, essa pareceu uma “guerra” perdida. A frieza dos conservadores, a força física, a táctica cínica, o veneno do contra-ataque e outras armadilhas jogando com o sorriso do diabo, ditaram outra lei nos relvados de futebol. Perdido nas brumas, ficava o futebol romântico das “causas perdidas”.
Até que, de repente, surgiu, por entre as multinacionais montanhas de músculos, um grupo de baixinhos com alma gigante. A alma do futebol “perdido”. Xavi, Iniesta e Messi. Um triângulo com 1,70m. de futebol. Quando a bola está onde deve estar, junto à relva, todos temos a mesma altura. Nesse momento, que importa ter 1,85m? A essência do “jogar bem” não está no físico, está no talento. Nenhum daqueles baixinhos são, no entanto, jogadores frágeis. Não, se aproximarem-se deles podem ouvir o terno roncar de um motor no seu interior. É a rotação da técnica. Nunca param.
O Barcelona de Guardiola é um poema que espeta uma lança romântica no coração frio do futebol moderno. Tem, também, o poder de destruir a ideia de que a táctica é uma coisa sempre insensível, fria e calculista. Porque no seu futebol, aquele que atropelou, com sorriso na face de onze jogadores, o gigante de Manchester, está presente uma grande ideia táctica. Só assim é que tanta técnica pode ser, para além da beleza estética natural, tão eficaz em termos de resultados.
A luta do futebol moderno é clara: É uma luta entre equipas que tentam fechar espaços e equipas que tentam criar espaços. Equipas a tentar fechar espaços existem aos milhares na história, passado e presente, do futebol. Equipas a ganhar tentar abrindo espaços, sucessivamente, são raras na história do futebol. O Barcelona pertence à segunda elite. É, por isso, uma grande equipa “táctica”. Mais até do que o Chelsea de Hiddink que foi tão elogiado por, na meia-final, ter conseguido durante tanto tempo amordaçar as belas ideias do “Barça”, renunciando a ter a bola e jogando a…fechar espaços. Não faz sentido. Elogiar uma estratégia, fria e calculista, que, apesar de legitima, tem a intenção de anular outra, mais bela e sedutora. A táctica não é repressiva por natureza. O projecto-Guardiola deste Barcelona prova como a chamada “boa táctica” liberta o jogador (e a equipa). As próprias diabruras de Messi não são feitas na anarquia. Mais do que aventuras individuais que driblam a táctica, são jogadas individuais com noção colectiva que dão voz à táctica. Ao lado ou em torno dele, a equipa continua a mover-se. Só assim é que qualquer finta ou arranque de Messi é feito no sitio certo para mais do que ser um mero malabarismo individual, ser uma forma artística de fazer a equipa avançar no terreno. E ganhar.
A vitória desta filosofia de futebol “Barça-Sec. XXI”, herdado do “dream team” de Cruyff, é o triunfo dos românticos. Dos românticos modernos, aqueles que ainda mandam flores, mas que sabem sempre o momento certo para o fazer.
