O velho e a “Celeste”

5 de Julho de 2010 21:17
O compromisso com o bom futebol só pode existir com um compromisso com o estilo

 

Conta-se que, num bar de Montevideo, existe um velho uruguaio que, há longos anos, continua, todos os dias, pelo fim da tarde, a levantar-se eufórico gritando “goooolo!”. Onde? De quem? Pergunta quem o rodeia. “De Gigghia, no Maracanâ, há 57 (58, 59…) anos, contra o Brasil!”, responde com os olhos brilhando, o trôpego hincha charrua. Para ele, o tempo parou nesse dia, quando onze uruguaios venceram duzentos mil brasileiros e deram o título mundial à Celeste. Acho, claro, esta história completamente impossível. Mas, mesmo assim, gosto de a imaginar verdadeira. E na minha cabeça, é.
 
Pois bem, 60 anos depois, o Uruguai volta a disputar a passagem à final de um Mundial. Já não existe o caudillo Varela nem o esquivo Gigghia, mas existem outros projectos de herói para fazer voar a alma charrua. O futebol uruguaio não revelou, porém, grandes progressos técnicos nos últimos anos em termos internos. Ou seja, os seus clubes têm, inclusive, passado para segundo plano ano contexto sul-americano. A nível de selecção, a equipa sente dificuldades no apuramento. Mas quando o lado emocional estabiliza (decresce mesmo de intensidade) o onze joga melhor. É essa, na minha leitura, a principal diferença. Porque na táctica a alternância (resultante das dúvidas) entre sistemas de «3» ou «4» defesas continua. Onde o Uruguai cresceu foi na mentalidade competitiva. Controlou a agressividade excessiva (violência até, por vezes) e passou a ter melhor relação com a bola. Nestes jogos, com um ritmo mais baixo a predominar, consegue colocar em prática essa sua maior serenidade táctica-posicional a trocar a bola, partindo de dois médios “comedores de espaços” (Perez e Rios) para depois soltar um trio de grandes avançados móveis (Suarez-Forlan-Cavani). Faltar-lhe-á um bom médio centro ofensivo, o chamado enganche sul-americano. Nacho Gonzalez é curto e agora todos depositam essa esperança no crescimento do pibe Lodeiro (mas que lesionado não voltar a jogar no Mundial).
 
Este regresso do Uruguaio ao topo do Mundo tem, portanto, uma explicação simples: Só pode existir um compromisso com o bom futebol se antes existe um compromisso com o estilo.
 
 
E Fabregas a titular?
 
Eu sei que as equipas vivem de equilíbrios mas existem casos que fazem pensar. Este está relacionado com um só jogador. Revejo o golo da Espanha ao Paraguai e volto a pensar no mesmo. A personagem principal de todo esta reflexão é Fabregas. Naquela altura, em campo, Del Bosque tinha desfeito o duplo-pivot no sentido táctico do termo e lançara, por fim, simultaneamente, três poetas do toque: Xavi, Iniesta e Fabregas. Não existe, no cenário actual, melhor visão de bom futebol. A entrada de Fabregas fora decisiva para acelerar a posse de bola construtiva da Espanha.
Perguntarão quem poderá sair para ele entrar? Penso que a solução estará em olhar para o ataque e ver a forma «incompleta» como Villa e Torres se movimentam quando jogam juntos. Ou melhor, quando jogam ao…mesmo tempo. Porque raramente os vejo a tabelar. A tendência é Torres ficar no meio e Villa cair mais na faixa. Por isso, podia sair Torres, Villa fixar-se mais no meio e Iniesta entrar mais pela faixa, pegando Fabregas atrás e Xavi mais perto de Busquets.
A solução não é fácil e só tem Del Bosque tem poder para ela, porque trata-se de mexer numa equipa que ganha sem ferir dois jogadores que jogam da mesma forma como… pensam. Com inteligência.

 

 

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