A época entra na chamada fase decisiva. Será, sem dúvida, em termos de definição de resultados, mas, o momento mais decisivo para o que hoje se passa, em qualquer equipa, em qualquer clube, em qualquer jogador, foi o…primeiro dia da época, o primeiro passo para construir o “Entusiasmo F.C.”, a equipa mais forte em qualquer fase da temporada, insensível à perseguição do chamado “pico de forma”, que desde velhos tempos se dizia a equipa devia perseguir para atingir nesta fase. Um mito que o futebol moderno desmistificou.
Uma equipa que não crie, ao longo de toda a época, uma regularidade exibicional no chamado triângulo da vida do futebol composto por técnica, táctica e condição atlética, dificilmente chega a esse momento com uma organização de jogo e seus índices de confiança num ponto alto. O importante é definir, desde o primeiro dia, um modelo e uma filosofia de jogo. Depois, há que fazer tudo para que eles tenham sempre, em qualquer fase, as mesmas condições atléticas para se exibirem. Cada fase, porém, tem um nível diferente de aplicação dessa filosofia, em função da evolução da equipa (e seus jogadores).
O problema mora, no limite, em saber quando o onze poderá interpretar o modelo de jogo ideal. É com esse fim táctico e físico que o treinador deve trabalhar desde o inicio da época, fazendo ambos evoluir sincronizadamente. É natural, no inicio, sem hábitos criados numa determinada forma de jogar (a aplicação dos tais princípios de jogo) seja difícil a equipa colocar em prática o futebol idealizado. Nada de dramas. O fundamental é ir solidificando ideias, rotinas, formas de resolver problemas. Ganhar identidade. Portanto, mais do que um “pico de forma”, as equipas devem ter um chamado “pico de modelo de jogo”, entendendo tal como o facto de só as equipas táctica, técnica e atleticamente fortes, poderem jogar de forma tacticamente mais exigente e alternada sem com isso perder mecanismos e criatividade, enquanto que outras devem permanecer nas opções tácticas mais seguras que sobretudo as protegem dos seus defeitos e evitam perder equilíbrios.
Neste campeonato, e seguindo toda a época, o FC Porto de Jesualdo foi, claramente, a equipa que mais evoluiu. O losango do Sporting cristalizou-se e nenhum jogador parece hoje muito melhor do que no inicio da época. Talvez só Izmailov manteve o mesmo nível, destacando-se como o jogar sempre em melhor forma, no sentido filosófico do texto. O Benfica vagueou em todo este percurso, deu sinais de avanços e recuos na disponibilidade física e, com isso, sentiu-se que partiu a corda que ligava esse lado atlético do jogo com o lado táctico. Dessa forma, a forma da equipa viveu numa “montanha russa” e chega a esta fase provocando sensações contraditórias, como se não tivesse, durante os jogos, refúgios táctico-fisicos seguros para se resguardar nos momentos mais difíceis. O FC Porto percebeu onde estavam os seus defeitos na fase mais hesitante da época dentro deste processo de construção da filosofia de jogo. No plano colectivo (percebendo a leveza do 4x3x3 e como o fazer evoluir para saber desdobrar-se em 4x1x3x2 como hoje faz) e no plano individual, seguindo a evolução de Hulk, de jogar aventureiro, super-heroi que pegava na bola e queria entrar com ela pela baliza dentro, até hoje um jogador com maior sentido colectivo e já capaz de “falar” com os colegas avançados em campo. Não melhorou fisicamente (continua o mesmo “monstro”), melhorou tacticamente. Por isso, não dever dizer-se que está hoje num “pico de forma”, mas antes num “pico de modelo de jogo”. Vale para o jogador, vale para a equipa.