Vê-se uma equipa a defender bem e fala-se logo de uma equipa bem organizada. Vê-se uma equipa a jogar bem a atacar, e diz-se logo que tem bons jogadores. Essa tendência de ligar defesa ao esforço e ataque à criatividade, criando compartimentos estanques de ideias de jogo no mesmo onze, não é um exclusivo da análise futebolístico. Também existe na cabeça de muitos treinadores. A solução: coerência, todos os jogadores responderem pelo mesmo estilo de jogo.
A posição e espaço que tacticamente melhor expõe este dilema é o dos pivots à frente da defensa. Neste início de época, Benfica e Sporting têm comprado muitos jogadores, mas o ponto táctico mais sensível para a solidificação da tal ideia coerente de equipa (construção da ligação defesa-ataque) estão nesse lugar. O FC Porto ainda não mexeu nessa casa 6 mas, vendo as limitações de Fernando em aumentar a sua dimensão periférica construtiva com bola, penso que também nela reside a chave a partir da qual a equipa pode crescer.
No Sporting, o eclipse dos seus habitantes do passado (Maniche, Pedro Mendes, Zapater) ameaça, ao mesmo tempo, aquele que poderia ser, numa evolução normal, a sua principal referência para esta época: André Santos. Os elogios ao reforço Rinaudo nascem, lá está, a partir do esforço, e, talvez, do traço que mais me perturba quando se quer elogiar um jogador: espírito de sacrifício. Não faz sentido. Porque o (bom) futebol não tem nada a ver com sacrifício. O jogador não é um mineiro.
Pensem só nisto: quando se desperta para a paixão pelo futebol, camadas jovens ou futebol de rua, alguém diz ao dirigir-se para um relvado ou baldio de terra que vai entrar para sofrer durante umas horas? Claro que não. Porquê então essa ideia no futebol adulto? A base é a satisfação no jogo e, claro, com obrigações tácticas, querer e dar a bola. André Santos transmite essa união: responsabilidade alegre, nunca sacrifício táctico. Respeita a organização, e, ao mesmo tempo, tem uma cara leve quando sai com a bola a jogar.
O Benfica contratou o perna-longa Matic para essa posição e o seu mundo táctico move-se. Começa a pensar melhor o ataque a partir de um dito médio…defensivo. Ao mesmo tempo, o antigo nº6, Javi Garcia, confessou tacticamente num simples gesto a sua verdadeira vocação e a forma como, no contexto do onze, o treinador o via: face as necessidades da equipa, recuou para defesa-central!
Sempre que vejo um nº6 a recuar para central é a confissão táctica definitiva: ok, confesso, sou um trinco. Quando vejo um nº6 a subir no terreno, para 8 ou médio mais ofensivo (mesmo que depois nem dê certo) é a conclusão inversa: ok, sou mesmo um pivot! Que quer tirar o hífen do defensivo do nome. Repare-se, não é que exista algum mal em ser apenas um trinco. O futebol é um ecossistema tão grande que admite todas as espécies futebolísticas e expressões de jogo. E há sempre quem lhes dê um papel de protagonista. O que se discute é algo mais profundo: ideia de jogo a partir de uma posição.