ONCE CALDAS: O Exército colombiano de Manizales

11 de Dezembro de 2004
UMA EQUIPA DE COMBATE, ESTRUTURALMENTE DEFENSIVA, QUE JOGA SÓ COM UM AVANÇADO FIXO.

Esqueçam o toque e a técnica apoiada do tradicional futebol colombiano. Realista, de rosto fechado, este Once Caldas é uma equipa sem pretensões estéticas. Um onze-carraça, estruturalmente defensivo, que faz da combatividade um estilo e do contra-ataque a principal arma. Descubra os nomes de Henao, Jiménez, Viáfara, Soto e Alcázar, estrelas do Blanco, Blanco.
Até há poucos meses, o nome do Once Caladas era totalmente desconhecido do futebol mundial. Na meteórica subida deste pequeno clube colombiano, que, ultrapassando os históricos colossos da América do Sul, conquistou sensacionalmente a última Copa Libertadores, está, afinal, a fórmula das pequenas-médias equipas, sem investimentos faraónicos, superarem os gigantes que investem milhões: saber potencializar as qualidades e disfarçar os defeitos. Sem grandes estrelas, o Once Caldas é o exemplo perfeito deste conceito. Sabiamente orientado por Luís Fernando Montoya, soube entender as limitações que o impedem de abordar o jogo com intenção dominadora. Assim, com uma indomável atitude competitiva, criou uma muralha defensiva, apoiada por um meio-campo de guerreiros e apostou no contra-ataque para invadir o terreno adversário. A base, porém, é a segurança defensiva. Estamos, desta forma, perante um onze conservador, rochoso, que não receia em defender perto da sua área e disputa todas as bolas como se de cada uma delas dependesse a vitória. Neste estilo, não existem preocupações estéticas, nem requintes técnicos.

O ESTILO E A TÁCTICA

Os motores do meio campo: Recuperação e criação

Em relação á equipa que ganhou a Copa Libertadores em Julho, a principal diferença reside na saída do seu médio mais ofensivo, espécie de segundo avançado, o virtuoso Valentierra, que rumou ao Qatar, para o Al Wahda. Mesmo sem ele, o esquema táctico do onze permanece igual, baseando-se, essencialmente, num 4x5x1, estendido em 4x4x1x1 ou, na posse da bola, em 4x2x3x1, com defesa sempre a «4», á frente duas linhas do meio campo, ambas muito recuadas, que representam a dupla função do sector: recuperação e criação. Formada por médios combativos, estas duas linhas são o motor da equipa, alongando ou encurtando o campo em função da sua dinâmica ser mais defensiva ou mais atacante. A primeira, composta por uma dupla de volantes (Velásquez-Viáfara ou Arango) plantada na meia-lua, muito perto do sector defensivo, pauta o ritmo de jogo, função desempenhada pelo farol Vélasquez, e iniciam a saída de bola para o ataque, servindo a segunda linha, missão de transporte, na qual se destaca a passada larga de Viáfara, com tendência a descair para a direita, espécie de enganche recuado que, quando sobe, une as três linhas. Á frente desta dupla de contenção, surge a segunda linha, com três médios estendidos a toda a largura do terreno, onde se destaca o papel dos alas (Soto-Moreno) na transição e nas compensações defesa-ataque. Sobem quando a equipa recupera a bola, recuam a fechar o flanco quando a perde. Um papel exemplarmente desempenhado por Soto, á esquerda, enquanto o pibe Moreno, 19 anos, sobre a direita, é mais objectivo ofensivamente, muito veloz e com poder de finta, partindo de trás para, depois, surgir no apoio ao ponta de lança, quase como um segundo avançado. Apesar desta criatividade atacante, o ponto de partida posicional dos alas é, no entanto, sempre a cobertura defensiva. No meio, funcionando como principal de referência na circulação de bola, ou apoiando o ponta de lança solitário, surge um volante criativo, o venezuelano Jiménez, inteligente director de jogo, ou o jovem argentino Fabbro, 22 anos, vindo do Boca Juniores.

A defesa e o ataque

Sempre esquematizada na clássica linha de quatro elementos, o Once Caldas possui uma poderosa dupla de centrais (Cataño-Vanegas), daqueles que joga sempre de dentes cerrados. Forte a marcar em cima o ponta de lança adversário, duro nas antecipações, o capitão Vanegas é o chefe do sector. A seu lado, o gigante Cataño, algo inestético nos cortes, é o homem das dobras. Forte de cabeça, é também muito perigoso quando sobe nos lances de bola parada. Dentro da postura conservadora do onze, a missão dos laterais é, essencialmente, de segurança defensiva. Raramente sobem, apoiando os alas apenas até ao meio campo. Mesmo sem imprimir grande velocidade ao contra-ataque, o onze procura sempre sair a jogar em futebol apoiado, procurando triangulações perto da área adversária, ora com a subida de um volante (Viáfara), ora com diagonais de penetração de um dos alas flanqueadores (Soto-Moreno), quase segundos avançados, junto do venezuelano Jimenez, na conclusão da fase atacante. No papel, o esquema parece, por vezes, um 4x4x2, mas, na dinâmica táctica, transformando um dos avançados num médio ofensivo, a equipa só joga com um ponta de lança clássico. Para esta função, a principal aposta é Alcázar, muito experiente. As outras opções, são Jefrey Diaz, o tipo de avançado alto e meio desengonçado, e um argentino naturalizado mexicano De Nigris, esta época contratado ao Poli Egido, da II Divisão espanhola. Chegou em Agosto, rotulado de goleador, mas só quatro meses depois conseguiu fazer um golo.

JOGADORES-CHAVE

JUAN CARLOS HENAO

Posto: Guarda-redes Idade: 32 anos (30/12/71) Um guarda redes que transmite carácter á equipa. Na imagem e na forma de defender, tem o perfil dos locos latinos, orientando os defesas. Chamam-lhe um novo Higuita, mas Henao é muito mais guarda redes. Sabe sair da baliza, não inventa, e entre os postes, possui grande agilidade, voando para a bola ou adivinhando o seu trajecto. Depois de defender dois penaltys frente ao Boca Juniores na final da Copa Libertadors, tornou-se num herói do clube.

JOHN VIÁFARA

Posto: Médio-volante Idade: 26 anos (27/10/78) O grande monstro do meio campo. Colocado á frente da defesa, como um volante clássico, descaindo sobre a direita, onde também pode jogar de inicio, é um grande transportador de bola. Atleticamente forte (1,85m. e 85kg.), com passada larga, enche o capo todo. Defende, corta, passa, ataca, transporta e remata, dono de um forte pontapé. A primeira transição defesa-ataque passa sempre por ele.

ELKIN SOTO

Posto: Médio-ala esquerdo Idade: 24 anos (8/4/80) Feito no clube, é o jogador mais criativo do onze. Actua sobre o flanco esquerdo, é ambidestro, tecnicamente perfeito e muito lutador. Tacticamente muito disciplinado, fecha muito bem o flanco a defender e abre a atacar, sendo um dos principais responsáveis por dar profundidade de jogo atacante á equipa.

HERLY ALCÁZAR

Posto: Ponta de Lança Idade: 28 anos (30/10/76) Avançado móvel, daqueles que recua para fugir ás marcações, embora não seja muito rápido. Possui um forte remate de primeira e sabe jogar sozinho ente os centrais. Tecnicamente dotado, segura bem a bola para esperar a entrada dos médios. Agressivo nas bolas divididas, fisicamente robusto (1, 81m. e 78kg.), jogou vários anos no Peru, no Cienciano e no Sporting Cristal.

O Onze base (Sistema: 4x2x3x1)

Artigos Relacionados

  • Onde estão as estrelas? Onde estão as estrelas? 9 de Dezembro de 2011 Viagem pelo “fútbol” argentino: como joga o Boca, o River na II Divisão e os golos de Gutierrez
  • A vantagem de ser “vagabundo” A vantagem de ser “vagabundo” 22 de Setembro de 2011 Por princípio, tudo o que é defensivo depende do treinador, tudo o que é ofensivo, do jogador
  • “Caixa de ferramentas” “Caixa de ferramentas” 23 de Julho de 2011 À 10ª jornada, primeira análise ao Brasileirão 2011. O Corinthians guiando o domínio paulista.
  • Bola, técnica e garra Bola, técnica e garra 13 de Maio de 2011 Copa Libertadores, do Paraguai ao Chile: viajando pela “babilónia” da América do Sul
  • Brasil: uma finta, um tackle Brasil: uma finta, um tackle 8 de Maio de 2011 Desvendando os gramados brasileiros: O Paulistão 2011 e o seu outro lado.