Onde nasce uma crise?

23 de Outubro de 2008
A depressão de Juande Ramos, tentando entender como é possível o Tottenham estar em último lugar.

 

Como nasce uma crise numa equipa de futebol? Cada caso terá as suas razões, mas há realidades quase universais. O enigma aumenta quando nela está um treinador que pouco antes transportava uma aura de grande sucesso. Em White Hart Lane, o céu está prestes a cair em cima da cabeça de Juande Ramos. A imagem vitoriosa trazida de Sevilha esfumou-se. O Tottenham está em ultimo lugar à 8ª jornada, com apenas dois pontos. A cada grande plano seu no banco, vê-se um olhar que parece perder-se no horizonte das quatro linhas do relvado. A equipa parece uma sombra errante. O último jogo, frente ao Stoke, colocara-o a jogar no abismo. Os dois últimos classificados frente a frente.
 
Não basta uma sucessão de maus resultados para se falar numa crise. É preciso que na sua origem estejam sucessivas exibições onde, para lá da questão táctica, se veja uma equipa deprimida em campo, sem atitude táctica e emocional. É o que sucede no actual Tottenham. O seu jogo está longe do 4x4x2 com extremos ou homens verticais e rápidos nas faixas que fez a imagem do belo Sevilha. Inglaterra é, no entanto, diferente.
 
Em campo, a equipa está muito longe de entender esse jogo. Sente-o Juande e sente-o Modric, o craque que devia pegar no jogo na criação do meio-campo, mas que joga demasiado perto do ponta-de-lança, Bent. A saída da dupla atacante Berbatov-Keane mudou o jogo da equipa nos últimos 25/30 metros. Bent move-se bem sozinho, mas não encaixa com Pavlyuchenko em termos complementares. Abordam o jogo de forma semelhante perto da área. A capacidade de Berbatov segurar a bola esperando a subida dos médios era fundamental para agarra o ataque. O problema nas faixas, espaço de devoção de Juande, nasce também da falta de ligação laterais-alas. Tem dois bons laterais (Bale, Corluka ou Hunt) robustos a defender e atacar, mas falta depois combinar com os alas. É quando surge Lennon, mas quase sempre apenas em iniciativas individuais. Zokora, a trinco, vai segurando o momento defensivo, mas com o peso de Huddlestone fora da equipa, é Jenas que sofre mais com a falta de ligação entre-sectores do onze. Muitas vezes parece que a bola fica confundida entre ele e Modric, sem saber com quem deve confiar para fazer o transporte defesa-ataque. Uma indefinição colectiva por onde também se escapa o talento de Bentley, promessa inglesa vinda do Balckburn, mas com um ritmo de jogo diferente do resto dos médios Zokora, Jenas e Modric.   
 
A verdadeira crise de uma equipa de futebol existe quando esta, perdendo ou ganhando, não revela identidade clara em campo. Juande falhou na construção da identidade porque não entendeu como fazer a adaptação filosófica do seu futebol dos relvados espanhóis para os ingleses.
 

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