Onze jogadores obrigados a pensar

2 de Dezembro de 2011 12:51
O estranho caso da "equipa de posse", as transições como necessidade e o que significa "defender com poucos"

Onze jogadores em campo e, no inicio, numa distribuição tacticamente racional, a maioria mais perto da sua própria baliza do que da adversária. Não se trata do triunfo das ideias defensivas, trata-se do primado da organização defensiva (o jogo construído a partir de trás). O jogo, porém, imprevisível, nem sempre respeita esta lógica numérica e, muitas vezes, ela altera-se e a equipa fica a defender com menos jogadores do que pensava, surgindo exposta a situações de, por exemplo, «2 para 3» ou «2 para 4», em inferioridade numérica. Essas situações também têm de ser previamente pensadas/treinadas.

No fim do derby, onde o Benfica acabou, por ter menos um jogador, a defender em cima da sua área, com muitos jogadores, Jesus elogiou o comportamento mas lamentou a opção porque "uma das nossas principais qualidades é saber defender com poucos!". Falava sobretudo da estrutura defensiva, mas a ideia também aplica-se ao comportamento de uma equipa no seu conjunto. A capacidade dela saber gerir os diferentes momentos do jogo (defender, atacar e transições entre eles) não está directamente relacionado com o número de defesas ou avançados que surgem no papel, mas sim na capacidade de, no jogo, a maioria dos jogadores conseguirem interpretar essa mudança de comportamento, alternada e sucessivamente.

Por isso, muitos vezes os melhores «defesas» são os avançados que sabem quando a equipa lhes pede um comportamento de recuperação e cobertura para o qual em principio não nasceram no plano de jogo. É um dos maiores méritos deste Benfica: saber baixar o bloco a partir dos avançados e, defendendo, começar a prepara a melhor forma de...atacar. Ou seja, com esse recuo (estratégico ou necessário) também convida o adversário a subir e com isso ganha espaço nas suas costas para depois lançar ataques rápidos.

Penso que a tentativa de evolução FC Porto de Vítor Pereira também passa por isso. Não vejo na forma como gosta de baixar linhas após a perda da bola, um princípio típico de uma «equipa de posse». Pelo contrário, vejo mais de uma equipa que quer procurar sobretudo um jogo de transições o mais rápido possíveis. A equipa quer agora recuar mais o meio-campo para dar maior espaço de velocidade aos seus avançados. O facto de ainda não o conseguir ainda fazer é outra questão (hábitos anteriores enraizados, processo de construção novo...). Olhando o indefinido actual modelo de jogo do 4x3x3 azul-e-branco, expresso nas mudanças e hesitações (de jogadores e ritmos) do «3» do meio-campo, vejo quase um projecto entre o de Jesualdo e o de Villas-Boas, mas ainda sem identidade própria, mais confundido do que personalizado. Uma indefinição que aumenta com Hulk a nº9.

Em qualquer os casos, ou das equipas, o principio de «defender com poucos» é uma forma essencial para...atacar melhor. Um ideologia que depende essencialmente do que, nesses momentos fazem os... avançados!


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