Os adeptos preferem as “loiras”

6 de Julho de 2011 15:38
Estética e negócio. Atracção e golos. Cabelo e futebol. Como se define um bom ponta-de-lança?

 

Quando pensamos num grande ponta-de-lança, a tentação é imaginar alguém crescido na rua, roupa suja, que já no berço chutava a chupeta em arco e nos relvados leva tatuagens, brincos e cabelo comprido com um elástico para não cair para os olhos. Dá logo sensação de ser mais temível aos adversários. Festejam golos com raiva, tiram a camisola, dizem amo-te à namorada e correm longos metros para ir abraçar o roupeiro ao banco. É a prova de gratidão máxima do nº9 com coração. Aquele com que qualquer pai sonha casar a filha. Mas nem todos são assim. Goleadores penteados parecem inofensivos, mas também existem. Descontando a mentira do Nené nunca sujar os calções como prova disso (vi-o muitas vezes com os calções sujos e noutras, ele já confessou, trocava-os ao intervalo) no presente lembro-me logo de dois casos: Nilmar e Rossi, do Villarreal. Pode ser já o minuto 85, a precisar marcar, com pressão louca, que eles estão tão penteados como estivessem num baptizado.
A estética do jogador de futebol não é um assunto tão fútil como parece. Porque influencia a primeira impressão que temos dele. E, depois, no limite, pode fazer carreiras no sentido de atrair olhares e ter oportunidade de pisar os melhores relvados. Falamos hoje em grandes goleadores e quantos falam de Rossi e Nilmar? Não tenhamos ilusões: os homens (os adeptos) preferem as loiras (entenda-se o nº9 esteticamente mais vistoso segundo os cânones de início do texto). E o comum dos treinadores, também.
 
Sempre que no defeso tenho esta reflexão sobre nsº9 acabo no mesmo sítio. Mais uma época e um dos nossos maiores goleadores continua fora da I Liga. Faz 36 anos em Setembro, talvez já nunca chegue lá. Falo do Bock, claro.
Quando há meses, convidado por uma empresa de apostas desportivas, falei a todos os capitães das equipas da II Liga, referi que a prova tinha média de golos superior à I Liga, mas ok, essa estatística não era muito justa, porque nela existia um factor que subvertia essa comparação. Nela jogava o…Bock! Disse-o, claro, meio a brincar, mas apesar do sorriso ténue do Bock, senti então que dentro dele qualquer coisa não bateu certo. E com razão.
Já sei o que estão a pensar. O Bock também nunca foi um nº9 muito penteado. É verdade, mas quando quero falar de loiras que no mercado tanto dão nas vistas, falo também em critérios de avaliação e contratação que, no sub-mundo, tanto turvam ou fazem carreiras. Amarante, Ermesinde, Gondomar, Vizela ou Freamunde são locais dignos para fazer golos, mas não encontro nenhuma razão futebolisticamente válida para nunca um clube (pelo menos médio-pequeno) da I Liga ter apostado nessa fábrica de golos de 1,75m.
 
No jogo, o melhor ponta-de-lança é aquele que, com a bola perto, fica sozinho num lugar onde, por princípio, nunca ninguém está. Fora dele, a construção da carreira necessita de mais companhia. Estética e negocial. Sejam elas tatuagens, madeixas ou golos. O futebol profissional é um mito romântico que actualmente se move sem colete de forças.
 

 

 

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