
A origem desta enorme legião marfinense é comum: a escola de futebol de Abidjan fundada por Jean Marc Guillou, que, por sua vez, firmou dois protocolos de cooperação, com o ASEC, na Costa do Marfim, e o Beveren, na Bélgica, que, neste contexto, aproveitando o facto de no futebol belga não existir limite de utilização ao numero de estrangeiros, se transformou numa espécie de montra de talentos africanos sua propriedade aos olhos europeus. Uma relação que data desde 2001, por entre a qual se perdeu a identidade do Beveren como verdadeiro clube belga.
Cingindo a análise apenas a questões futebolísticas, diga-se que o actual Beveren made in Costa do Marfim é um onze tecnicamente dotado (fruto da inata magia africana) mas tacticamente muito ingénuo, quase infantil mesmo, sobretudo na postura defensiva. Tacticamente ingénuo, cometendo erros infantis de posicionamento ou atacando a bola sem medir o timig de entrada, faz lembrar, em muitas fases do jogo, aquelas velhas selecções africanas que, sem grandes contactos internacionais, defrontavam equipas europeias, revelando uma enorme infantilidade táctica nas movimentações em campo. Mantendo um ritmo lento e apoiado, o onze de Hellepute, alinhando preferencialmente em 4x4x2, versão 4x1x3x2, é, tacticamente, um desastre a defender.
Todos os jogadores são muito novos, com idades até aos 23 anos (só o guarda-redes Copa tem 24). Com a bola nos pés, vê-se que existe o tal talento genético da África negra, mas inseridos ao mais alto nível internacional, a dessincronizarão de ritmo competitivo é gigantesca, provocando sucessivas goleadas, como tem sucedido na Taça UEFA (Stuttgart, 1-5, Dinamo Zagreb, 1-6).
Os centrais marcam á distância e quando cometem faltas é mais pela forma atabalhoada de entrar á bola, medem mal o tempo de antecipação e, noutros casos, são muitos macios, sobretudo Diawara, duro de rins, enquanto Eboué é o melhor elemento do sector. O problema defensivo começa, porém, na linha do meio campo, muito frágil nas acções de cobertura, missão entregue apenas ao trinco Abdoulaye Junior, esforçado mas incapaz de fazer tudo sozinho. Neste sentido, á medida que a bola avança no terreno e as regras tácticas se tornam menos exigentes, o onze vai destapando os seus aspectos mais positivos, situados na criatividade dos avançados Romaric e Samogo.
VENDO A MONTRA DO BEVEREN
EBOUÉ:
O tal que vai jogar para o Arsenal
Fruto sobretudo da amizade de Guillou com Wenger, o Arsenal também tem um protocolo de cooperação com o Beveren e a Academia de Abidajan. Foi de lá, por exemplo, que saiu o defesa Kolo Touré. Dentro desta política, no inicio da época, Né e Eboué treinaram com o Arsenal durante semanas, jogando, inclusive, no torneio de Amsterdão. Wenger gostou do que viu e, em Janeiro, o central Eboué, 21 anos, também irá rumar a Highbury Park.
Com 21 anos, há três no Beveren, Eboué sabe colocar-se bem no eixo defensivo, mas precisa de lapidar o timing de antecipação para o corte. Dá demasiado espaços ao avançado, pelo que necessitará passar a marcar mais em cima. Pressente-se que tem potencial para isso. Uma das suas principais qualidades é a polivalência, pois pode fazer qualquer lugar na acção defensiva. Originariamente defesa central, também alinha como lateral direito ou como trinco á frente da defesa. Assinou com o Arsenal um contrato de quatro ano e meio, até 2009. Veremos a sua evolução
MARCO NÉ,
O chefe do meio campo

Na época passada, o Beveren revelou dois excelentes médios: Yapi Yapo e, sobretudo, Yaya Touré (irmão de Kolo Touré que joga no Arsenal), médio centro possante. Dentro da política do clube, ambos foram vendidos: Yapo para o Nantes, de França, e Touré para o Metalurg Dontesk, da Ucrania. Sem eles, emergiu um novo patrão do meio campo: Marco Né, 21 anos. É ele que dita as coordenadas de toda a equipa na partida para o ataque, recuperando e distribuindo jogo, sobretudo em passes longos. Atleticamente forte e esguio (1,83m. e 66 kg.) tecnicamente dotado, cobre bem a bola e sabe ler o jogo. É um pouco lento, mas, bem trabalhado táctica e tecnicamente, seria um excelente reforço para qualquer clube europeu da chamada segunda linha. Vejam-no com atenção. Poderá estar aqui uma boa aquisição para um clube português de nível médio.
ROMARIC-SAMOGO
A virtuosa dupla atacante

Os aspectos mais interessantes deste Beveren, em termos de criatividade e atracção futebolística, situam-se, indiscutivelmente, na sua dupla atacante Samogo- Romaric. São jogadores diferentes.
Romaric, 21 anos, possui um potente pé esquerdo, que ora utiliza no controle de bola e forma de ultrapassar adversários, como também na marcação de livres, em força, como no fabuloso o golo que marcou ao Stuttgart na goleada. Chegou a meio da época passada, fazendo ainda 5 golos em 12 jogos. Possante, (1, 87m. e 88kg.), por vezes tem peso a mais, limitando os seus movimentos. Por isso, chama-lhe o elefante. É, actualmente, o melhor marcador da equipa, com sete golos em 13 jogos.
Sanogo, também 21 anos, mais leve e destro, é mais malabarista, dribla bem, troca de pés com facilidade e tem pormenores técnicos muito interessantes. É, afinal, o perfume do futebol africano, também presente em Arunina, 20 anos, a outra opção atacante, veloz e muito imaginativo.
LARDENOIT
O que faz este belga aqui?

Por entre a legião da Costa do Marfim, destoa um jogador colocado na faixa esquerda: o lateral Lardenoit, que também pode actuar como central. Ele é o único resistente belga por entre um onze africano. Com 21 anos, feito no Saint-Gillis-Waas, conquistou esta época a titularidade. Fecha bem a faixa esquerda, cobrindo os espaços, mas perde muitos lances de um para um, sobretudo porque com as marcações muitos débeis a meio campo, os adversários surgem-lhe pela frente quase sempre embalados. O outro intruso belga por vezes utilizado, sempre saindo do banco, é o jovem avançado Vleminckx, 18 anos, uma promessa de área, vindo do KSV Bornem.
O onze tipo /
Sistema: 4x4x2 (variante 4x1x3x2)

Eboué, jogando pelo Arsenal num torneio de pré-época disputado em Amesterdão