O dilema dos nº9 portugueses

27 de Março de 2011 16:14
Uma vida a olhar para uma baliza. Mais nenhum outro jogador tem tanta responsabilidade directa no jogo. E é “fuzilado” pelo olhar de todos quando não marca.

 

O golo é um bem de primeira necessidade para qualquer ponta-de-lança. Uma vida a olhar para uma baliza. Todas diferentes (ou parecendo diferentes) de jogo para jogo. No interior, porém, a alma de nº9 nunca pode mudar. Mesmo quando o treinador decide sentá-lo no banco e a baliza passa a ser quase apenas o quadro de uma paisagem morta. Nuno Gomes tem vivido quase toda a época nessa “sub-dimensão”. Entrou, apenas 49 minutos a pisar a relva, e marcou quatro golos. Mais uns minutos na Taça da Liga, outro golo. Nuno Gomes, o nº9 que, no passado, a titular, era criticado por falhar mais golos do que marcava, entrou esta época nessa supra-dimensão. Curtos instantes que foram o melhor desabafo.
É mais do domínio sociológico do que meramente futebolístico a relação dos adeptos, que o passaram a adorar, com este tipo de jogadores (misto de símbolos e avançados de carne e osso). Mantorras dava um romance de 400 páginas. Nuno Gomes é diferente, claro, mas há a porta secreta emocional que é a mesma.
 
Dizer que o futebol português vive uma eterna crise de pontas-de-lança não é uma afirmação nova. Olhamos os actuais convocados da selecção e vemos o habitual mundo de médios roda baixa (de futebol curtinho) e extremos dribladores (que vivem na sombra das faixas). Postiga e Hugo Almeida são os dois nº9. Para a invenção luso-brasileira Liedson, São Paulo fica muito mais longe do que Alvalade.
Não acredito que (seja pela formação mais científica, seja por geração espontânea) vá aparecer um nº9 fabrica de golos no nosso futebol. Pauleta foi um espécimen goleadora diferente. Fazia mais golos nos jogos ditos menos importantes por uma razão muito simples. É que o nosso estilo de futebol nunca encaixou verdadeiramente o estilo de ponta-de-lança clássico. Ele gosta (e precisa) sobretudo de um nº9 que antes de olhar para a baliza, olhe para os colegas em seu redor (médios e extremos) e jogue (dê apoios) com eles. A busca do mapa para a baliza tem de ser um projecto comum. É nesta constatação de estilo de jogo que entra o conceito saber jogar de costas (antes da baliza, olhar para os colegas). Essa necessidade cresce nos jogos com as ditas equipas mais fortes. Nesse estilo, Nuno Gomes conseguiu, na selecção, a relação jogo-baliza que muitas vezes não teve no clube.
 
O ponta-de-lança, assim como o guarda-redes, é uma espécie de eremita táctico dentro da equipa. Mais nenhum outro jogador tem tanta responsabilidade directa no jogo. E é fuzilado pelo olhar de todos quando sofre ou não marca.
É por isso, que sempre que vejo pontas-de-lança serem muito criticados, recordo uma história que o velho filósofo brasileiro Neném Prancha contava. O protagonista era um nº9 de um clube de província, assobiado toda a época pelos adeptos, jornalistas, e até dirigentes que já tinham decido dispensá-lo. Mesmo assim, a equipa lutou até ao fim para subir. E foi no último jogo, precisando ganhar, que, com 0-0, o tal avançado se isolou no último minuto. Todos se ergueram. Correu, correu, driblou guarda-redes e ficou com a baliza aberta. Quando todos já festejavam o golo, fez-se-lhe uma luz na cabeça e, com um imperceptível sorriso interior, chutou intencionalmente a bola para fora com um desengonçado pontapé à Charlot.
 
Não tentem encontrar correspondência com esta história e alguma situação do futebol no presente. Os bons pontas-de-lança vão para o céu, os maus vão para todo o lado.
 
 
 

 

 

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