Mergulhado numa profunda crise existencial, o design táctico do actual Inter sofre com a insustentável leveza do seu colectivo em conseguir interpretar, no relvado, o sistema que, desde sempre, moldou as equipas de Zacheronni: o 3x4x3. No essencial, sob o ponto de vista da elasticidade defesa-ataque, o dilema situa-se, sobretudo, nos flancos, onde, para garantir segurança defensiva, a dinâmica do sistema acaba por perder, obrigatoriamente, profundidade atacante. É, no fundo, uma questão de equilibrios, mas, na sua essência, o problema deriva, sobretudo, do facto de todo o plantel ter sido construído, por Cuper, a pensar num clássico 4x4x2 em linha, apostando, desde o inicio, em alongar o campo o mais possível.
Com o sistema de três defesas de Zacheroni sucede o contrário. O campo encurta-se e a equipa funciona mais em bloco. Falta-lhe, porém, consistência colectiva nas compensações defesa-ataque, sobretudo quando perde a posse da bola. Para além disso, na zona central, o onze carece de um organizador de jogo, um nº10 moderno, o trequartista como lhe chamam os italianos. Sem esse ponto de referência para circulação de bola (que não será Emre como Cuper pretendia) a equipa fica dependente sobretudo das triangulações pelos flancos, contando para isso com o excelente jogo sem bola dos avançados, exímios a recuar e a criar linhas de passe nas suas costas. O espaço central entre-linhas meio campo-ataque, a tal zona de criação, permanece, porém, sempre órfão de um fantasista ou organizador, um papel que Zacheroni tentou, no último jogo contra o Sochaux, entregar, quase de forma contra-natura, a Cristiano Zanetti, médio de contenção puro, num sistema de 3x5x2, ficando Farinos e Okan com a dura missão bífida de serem ao mesmo tempo recuperadores de bola e primeiros construtores de jogo ofensivo na saída para o contra-ataque.
Os jogos com o Sochaux:
entre o 3x4x3 e o 3x5x2

Tendo como referência as bases dos sistemas de três defesas, a eliminatória com o Sochaux, profeta de um puro 4x4x2 latino, foi o espelho fiel das hesitações tácticas que assaltam hoje a mente de Zacheroni.
Na primeira mão, em França, apostou num claro 3x4x3, com Helveg-Adani-Córdoba na linha defensiva, dois laterais ofensivos, J. Zanetti, á direita, e Pasquale, á esquerda, uma dupla de médios centrais, Lamouchi, o tipo de jogador discreto que joga sempre simples mas raramente falha um passe, e C.Zanetti a alma do onze. No ataque, Vieri, no centro, Van Der Meyde e Recoba, a rasgar pelos flancos. No segundo jogo, em Itália, Zaccheroni preferiu especular com o resultado, apostando num 3x5x2, que a atacar se estendia numa espécie de 3x2x3x2, mas sem elos de ligação entre os sectores, fruto do excessivo recuo dos médios sobre a zona central, com a dupla atacante Cruz-Vieri sempre mal apoiada, incapaz fazer as diagonais sem bola que abrem de espaços de penetração, acabando por ser Kily Gonzalez, sobre a ala esquerda, o único jogador capaz de, com as suas movimentações, abrir o jogo do onze a toda a largura do terreno.
A dinâmica do 3x4x2x1
e o fracasso do 4x4x2

Assim, observando, desde o inicio, a evolução deste 3x4x3 de Zaccheroni e suas respectivas variantes, conclui-se que a fórmula na qual o onze encontrou maior dinâmica táctica, foi quando conseguiu, em campo, alternar eficazmente entre o 3x4x2x1, sem bola, e o 3x4x2, com bola (sucedeu, por exemplo, contra a Juventus, V. 3-1). Foi nesse sistema, aliás, que emergiu a principal inovação deste ciclo-Zaccheroni, quando adaptou Julio Cruz, um nº9 clássico, á faixa esquerda, onde, ora abrindo a frente de ataque, ora verticalizando jogo e triangulando com Vieri, tornou todo o esquema mais compacto permitindo, assim, a entrada de Martins, explosivo a surgir de trás.
Talvez deprimido com a leveza do seu 3x4x3, Zaccheroni ensaiou, no entanto, pela primeira vez, no último jogo do campeonato (em casa, contra o Brescia), a conversão ao 4x4x2, mas com a defesa a marcar á zona, pelo que raramente o central Adani surgiu em cima do ponta de lança do Brescia, Caracciolo. Desta forma, jogando em 4x4x2, á zona, órfão do seu stopper clássico (Materazi) e sem fazer o fora de jogo, a linha defensiva, sem rotina em jogar a «4», nunca encontrou o sentido posicional correcto e acabou por ser dobrada, facilmente, pelo 3x4x2x1, do Brescia, o tal sistema que, nos primeiros tempos, moldara as melhores exibições deste Inter de Zaccheroni. Era, também, a variante na qual o onze ficava, claramente, menos dependente da acção e dos golos de Vieri. Uma lição que, face ao exposto, o poderá levar, talvez, nos próximos jogos, a regressar a essa base táctico-dinâmica, não sendo, por isso, de prever novos ensaios em 4x4x2.
Sochaux (2ªmão) (E. 0-0)
Sistema: 3x5x2 (variante 3x4x1x2)

Na intenção de controlar o meio campo e impedir o contra-ataque do 4x4x2 dos franceses, Zaccheroni apostou em ter, desde o inicio, superioridade numérica no sector. Abundaram recuperadores de bola, faltaram transportadores. C.Zanetti surgiu mais adiantado, J.Zanetti subiu menos e Kily Gonzalez foi o ala mais ofensivo. Com o espaço entre-linhas meio campo-ataque vazio, Vieri e Cruz raramente receberam um passe em condições.
Sochaux (1ºmão) (E.2-2)
Sistema: 3x4x3 (variante: 3x2x3x2)

É a face mais linear do 3x4x3, com a defesa a «3» atenta a dobrar nas costas, uma dupla de médio de contenção exímia em jogar curto, dois laterais com profundidade ofensiva e atentos para ir fechar no meio, e dois alas-extremos com capacidade para recuar, centrar, flectir, ou jogar em contra ataque, estendendo o sistema numa espécie de 3x2x3x2. A sua eficácia depende, depois, da mecanização e velocidade dos seus intérpretes.
Esquema base entre 9ª e a 15ª jornada
Sistema: 3x4x3 (variante 3x4x2x1)

É o sistema no qual o Inter de Zaccheroni realizou as suas melhores exibições. Com a zona central controlada pela dupla C.Zanetti-Emre, as principal inovação surge no tridente atacante -agora menos dependente de Vieri, devido ao maior adiantamento do ala Van Der Meyde, que assim pode fazer as suas perigosas diagonais, com ou sem bola, mais perto da área- surgindo, nas alas, Recoba e Julio Cruz, ambos em permanente movimento.
VARIAÇÕES EM TORNO DO 3X4x3