Os caminhos do «Mundial»

12 de Setembro de 2009
A Tunísia e a loucura de um golo, os segredos do Paraguai e o Brasil de… Júlio César!

 

Cinco continentes, seis diferentes caminhos para o Mundial. Em Abuja, na Nigéria profunda, a visita da Tunísia transformou num vulcão o National Stadium. A Tunísia jogava com o empate mas não foi com essa ideia que entrou em campo. Tradicionalmente, a região norte, África branca, produz equipas com um futebol mais defensivo e calculista, em contraste com a imaginação da região negra.
Há muito tempo, porém, que não via uma selecção da Tunísia tão personalizada com a bola, assumindo transições rápidas e contra-ataques, em vez de especular com ela em posse. Empatou perto do fim, num golão de Dagarri, que deixou enlouquecido Humberto, mas em todo o jogo manteve o controlo emocional, mesmo nos momentos de maior pressão.
A Nigéria, num sistema de 4x3x3 com dois médios-defensivos (Mikel-Olofinjana), tem um futebol mais imprevisível, pela imaginação dos avançados, como Odemwingie, os irmãos Uche ou Obina, que entrou na segunda parte, mas está longe do poder dos anos 90. Mikel é um médio que corre o campo todo, não se fixando tanto a pivot como no Chelsea, mas não tem depois criatividade e passe quando entra na segunda linha.
Mais inteligente tacticamente, a Tunísia montou um 4x3x2x1 que mantinha o controlo do meio-campo com um triangulo de médios muito intenso com e sem bola (Korbi-Ragued-Taider) e soltava depois três avançados sempre em movimento, dois deles dando sempre largura nas alas (Dagarri-Chaouki) tentando depois diagonais para combinar com o perigoso Jomaa, um 9 muito móvel.
 
Noutras paisagens futebolísticas, a América do Sul é hoje um grande cenário de emoções. Nunca o apuramento foi tão disputada. O Brasil já está no Mundial mas apesar da beleza de Kaká e os golos de Luis Fabiano, nunca um guarda-redes teve tanta importância na história da selecção brasileira. Antes falava-se do Brasil de Zico, Romário ou Ronaldo. Pode agora falar-se no Brasil de Julio César? Tenho vontade de dizer que sim…
 
O Paraguai também já fez o seu check-in mundialista. No estilo, diria que é a equipa sul-americana mais europeizada. Não será hoje, como já se lhe chamou, a “Itália da América do Sul”, mas tem sobretudo como raiz da sua filosofia de jogo a segurança defensiva. Aposta num sistema (ver quadro em baixo) com três centrais que fecha a «5» quando perde a bola, embora esses laterais não recuem excessivamente e tentem a recuperação a meio do meio-campo defensivo. Sem um grande médio-centro, solta um trângulo de combate que mais do que passar a bola à dupla atacante, carrega-a até eles, deixa-a lá ficar e volta para trás. A face perfeita do espírito guerreiro guarani, sonhando com o Mundial.
 
 
O crescimento da Eslováquia
 
Marcaram uma época como pátria unida. A Checoslováquia. Por isso, ver agora um Eslováquia-Republica Checa ainda causa inquietação. Finda a união, foi a Rep.Checa que assumiu a herança do melhor futebol, mas o presente revela outra tendência. Atravessa um período de renovação pós-Nedved. Baros, Koller, Sverkos e Stajner são apenas avançados esforçados. É Plasil, interior-esquerdo de um 4x3x3 com um trinco (Hubschmann) que manda mais no meio-campo e, a atacar, são os laterais Grygera-Jankulovski que causam mais perigo.
 
O empate (2-2) colocou a Eslováquia perto do Mundial. É um onze que vive sobretudo da forte zona de pressão central criada pelo trio do meio-campo (Straba-Weiss-Hamsik) que, sem bola, têm a ajuda dos avançados que recuam em recuperação. Com a bola, são um trio (Sestak-Holosko-Vittek) que troca várias vezes de posição. Muito perigoso Sestak a entrar nos espaços vazios como mais nenhum outro faz. Hamsik joga na selecção mais atrasada do que faz no Nápoles, para permitir o estender de um 4x3x3 puro mal a equipa recupere a bola sem perder o equilíbrio defensivo do meio-campo. O ponto mais débil está na defesa. Os laterais (Pekarik-Zabavnik) têm dificuldades em fechar por dentro, e obrigam os médios a trabalhar muito na transição defensiva. Uma equipa tacticamente intensa, que vive do jogo de pressão-controlo-pressão do meio-campo.  
 
 
A depressão de «Deus»
 
É cruel ver um Deus do futebol descer à terra dos resultados. Cada grande plano de Maradona, no banco da Argentina, contra Brasil ou Paraguai, é um atentado à sua aura divina. O fraco jogo revela um problema do actual futebol argentino: falta de bons médios-centro ofensivos, aqueles que organizam atrás dos avançados, mas também revela a incapacidade do treinador em resolver esse problema.
 
A Argentina Maradona joga num 4x4x2 clássico com duplo-pivot que não tem uma ideia na construção defesa-ataque mal a bola sai dos trincos Mascherano-Gago. Deixa Messi e Aguero soltos na frente, reinventou o velho Veron na direita e espera que um rasgo de Datolo ou Lavezzi, desde a esquerda, faça alguma coisa no jogo. Ao mesmo tempo, Riquelme, o ultimo 10 com que Maradona se incompatibilizou, fica em casa.
A depressão do pibe nasce do momento do futebol argentino e da sua visão de treinador. É a segunda, porém, que devora, num ápice, como a cabeçada de Luisão ou o remate de Valdez, a sua aura divina, subitamente humana nas suas fragilidades.
 
 
 

 

 

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