Os caminhos do mundo «verde»

24 de Outubro de 2009 12:43
É no relvado que se ganham jogos. Mas não é lá, porém, que eles se… começam a ganhar. O problema do Sporting está na origem

 

O jogo já terminou e Moutinho continua com o mesmo semblante. A ansiedade de quem mesmo parado parece estar a correr. É a imagem perfeita do actual mundo sportinguista. Vemos o onze leonino jogar e ao buscar razões para as suas cíclicas depressões exibicionais, saimos do relvado, do mero jogo, e vamos pelo túnel, balneário, treino, corredores, gabinetes… Mas há razões para sentir isso. Mais do que uma questão conjuntural, é uma questão estrutural. Não é um problema do treinador. Ou melhor, não é um problema que…comece no treinador.
Paulo Bento vive entre dois mundos. O desgaste das guerras extra-relvado (reflexo do problema estrutural) e a chamada cristalização táctica da qual esta época tem tentado fugir, embora sem provocar grandes rupturas com o losango-mater, ensaiando outras estruturas (4x4x2 clássico, um híbrido 4x3x3, contra o Nacional, 4x2x3x1 e, no máximo risco, os três defesas). Mesmo com essas variantes, porém, a equipa acaba a jogar sempre praticamente da mesma maneira, em termos de principais movimentos, pois as rotinas de jogo já se tornaram quase mecânicas. Ou seja, mesmo noutra estrutura, os princípios de jogo (comportamentos dos jogadores nos vários espaços) repetem-se.   
Falando da estrutura, as limitações financeiras, exigem uma astúcia ainda maior nos poucos reforços contratados. Não se encontra lógica de projecto global entre a aposta num jovem sul-americano (Matias Fernandez) e a contratação no último dia de um jogador em fim de carreira (Angulo). A política de formação necessita o acrescento de prospecção cirúrgica, em termos de acrescentar qualidade.
Falta definir uma cultura de jogo para o futebol do Sporting. Modelo e sistema(s). Causa incómodo ver um clube que fez jogadores como Futre, Quaresma, Nani, Simão ou Ronaldo, jogar hoje sem qualquer extremo, nem sequer os ter no plantel. E, pior, nem procura por eles no mercado, sabendo como é tacticamente importante este tipo de jogadores para dar mesmo dar largura e profundidade de jogo, sobretudo frente a adversários mais fechados.
São questões estruturais que agudizam-se face a dilemas conjunturais. A ausência de Izmailov, exímio a flanquear o jogo, a instabilidade de Vukcevic e os problemas defensivos, expressos na crise de Polga, sobredimensionada pelo facto de no seu lado esquerdo faltar hoje um lateral seguro defensivamente, sobretudo por dentro.
Neste cenário, custa ver Moutinho ser elogiado por…correr muito. É o pior que se pode dizer dele. Porque devia é ser elogiado por…jogar muito. Pela sua capacidade de passe e organização. Devia ser um maestro e está a tornar-se, usando uma imagem mais sensível ao mundo verde, num Oceano de rosto futebolístico mais humano. Devia ser muito mais.
Por tudo isto, a irresistível de tentação de fugir da relva para buscar razões da depressão do futebol leonino. Porque é, de facto, no relvado que os jogos se decidem, mas não é onde se... começam a ganhar. O problema do futebol do Sporting (equipa e jogo) está na origem. Fora do relvado.
 
  
 
  Liedson em 4x3x3
 
Explicar um jogador à luz de um sistema é o caminho mais curto para lhe limitar a sua dimensão em campo. É verdade que cada jogador tem um sistema onde se sente melhor, mas é redutor dizer que ele só pode jogar nesse desenho táctico. Liedson tem sido visto como avançado de 4x4x2. A sua inclusão na selecção deu nova vida ao debate. Porque também jogou em 4x3x3, e, claro, também jogou como sabe. De forma diferente, sem dúvida, e, talvez, menos à vontade, mas o principal ponto foi ver que também nesse outro sistema, em que diziam ser impossível ele jogar, Liedson continua a resolver.
É uma questão abrangente, pois existem vários tipos de 4x3x3. Com extremos típicos a fazer cruzamentos essa aculturação de Liedson ao novo sistema seria mais difícil. Num 4x3x3 vagabundo, em vez de dois extremos e um 9, com três avançados, promovendo mobilidade desde as faixas, diagonais ou idas à linha, Liedson respira com a mesma qualidade. Perceber esta nova imagem táctica de Liedson, pode ser um bom princípio para dar também novas inspirações ao jogo leonino.  
 

 

 

Quatro
anos  
 
Para um treinador, num clube, parece uma “eternidade”. No passado, em Alvalade, um treinador não podia ter grandes ambições em “envelhecer” com tranquilidade. Até que apareceu Paulo Bento. Despediu-se como jogador em lágrimas, foi treinar os juniores e quando Peseiro foi despedido, surgiu, meio tímido e de risca ao meio, no banco principal. Poucos auguraram-lhe então uma vida longa. Hoje, só o velho Szabo, anos 30/40, tempo dos violinos, treinou mais tempo o Sporting.
Paulo Bento já não é, porém, um mero treinador. Tornou-se num adepto em forma de treinador. Ou, vice-versa. Não sei qual das duas fará mais ou menos sentido, mas, a verdade é que essa sua devoção à “causa verde”, tem, no global, turvado a sua evolução natural como treinador. Diz que se sente hoje melhor treinador do que há quatro anos. É natural. Deveria, porém, sentir-se (e ser) ainda mais. Só não o é porque no labirinto leonino, o treinador anda vezes demais por caminhos que não são naturalmente os seus. Desvia-se do futebol puro em que só devia pensar. No plano pessoal, esse permanente sobrolho carregado, ameaça torná-lo refém de um falso estilo demasiado conflituoso
Tacticamente, o losango, tornou-se, ao mesmo tempo, a sua força e fraqueza. A força, pela cirúrgica interpretação dos seus princípios. A fraqueza, pela incapacidade de jogar noutros sistemas. As diferentes equipas de Bento nunca conseguiram, racionalmente, fazer-nos perder a consciência dos seus limites, um sentimento agudizado quando os jogos pedem outras alternativas.
Ainda faltam vários anos para o ancestral registo de Szabo (9 anos). O futuro do treinador Paulo Bento irá, naturalmente, conhecer outros habitats (clubes) mas hoje é difícil imaginá-lo num local diferente. No futebol, como na vida, não vejo nisso uma vantagem.    
 
Ansiedade
”verde”
 
Costuma dizer-se que uma equipa fica intranquila quando as coisas começam a correr mal. Muitos fazem esse diagnóstico ao Sporting. Penso que o seu problema é mais profundo. Viu-se contra o sorumbático Ventspils. Reparem que o onze leonino até entrou bem, fez um golo, criou oportunidades. Tinha tudo, portanto, para ficar sereno. Mas não. Bastou um lance perto da sua área e a equipa ficou logo com o coração acelerado, sem coesão. O problema, a “pressão”, ansiedade colectiva, vem de trás. Para perceber como as coisas chegaram a este ponto, recue-se até à conferência de imprensa após o primeiro jogo particular. Derrota com o Feyenoord e logo tudo muito “nervoso”, treinador e estrutura, num discurso que, a partir daí, os jogadores nunca mais se libertaram.
Fugir a ansiedade não é um mero caso de a bola entrar e tudo se resolve. Pelo contrário, é um caso de a bola não entrar, e saber reagir (na mente e no campo) para, a seguir, ser diferente. Em síntese: Questão de competências.  
 

 

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