Os campeões do frio

19 de Novembro de 2007
Allsvenskan, TippeleIigaen e Veikkausliiga. Viagens pelos campeonatos do norte da Europa. Suécia, Noruega e Finlândia. O perfil e as estrelas dos campeões Goteborg, Braan e Tampere. No Helsinborg, a cruzada de Larsson.
Allsvenskan, TippeleIigaen e Veikkausliiga. Nomes pouco familiares para o comum dos adeptos do futebol europeu, mais sensíveis a outros faraónicos Campeonatos. Desde há algumas épocas, porém, que aqueles nomes estranhos, designações da Liga sueca, norueguesa e finlandesa, mereceriam um olhar mais atento. Longe vai o tempo em que, como dizia o antigo jogador islandês Edvaldsson “quando ia ao estrangeiro e sabiam que era da Islândia, tomavam-me por um esquimó e pensavam que viviam num iglo”. Agora, não. Para além de saberem que vivem em boas casas com aquecimento central, cada vez se descobrem lá melhores equipas e jogadores, com um nível competitivo interessante. Disputam as suas épocas ao contrário das nossas, fazendo-o durante o Verão, para fugir aos maiores rigores do frio Inverno escandinavo. Chegaram agora ao fim. Goteborg (Suécia), Brann (Noruega) e Tampere (Finlândia), os seus campeões. Símbolo dos anos 80, o Goteborg cairia numa depressão profunda que o afastara do título por 11 anos. A luta pelo primeiro lugar durou até á ultima jornada, com o Djurgarden. Mais distante ficou o Efsborg campeão em 2006 mas que, esta época perdeu consistência, apesar de ter um bom meio-campo, chefiado pelo internacional Anders Svensson e impulsionado pelo inteligente Ishizaki, um médio que ocupa bem qualquer zona de transição, seja no momento ofensivo como no defensivo. Um estilo híbrido, embora algo lento, que tanto poderia encaixar em Inglaterra como em Itália. No campeão Goteborg, um belo ponta-de-lança, Berg, apoiado por Wallerstedt, num onze com muitas promessas. Bjarsmyr, 21 anos, Sigurdsson, 21 e Johansson, 24, na defesa, e, sobretudo, a meio-campo, Wernbloom, 21, muito forte a surgir de trás para rematar. Mas a Liga escandinava que tem subido mais de nível competitivo é a norueguesa. Embora com boa presença na Champions, impulsionado pelo faro goleador de Iversen, terminou a ditadura do Rosenborg e surgiram outras equipas no topo. O Valerenga e o Brann, campeão surpresa desta época após 44 anos. O patrão da equipa é o médio Andresen, ao lado de Solli, belo jogador, a apoiar o ataque onde está o experiente Helstad, possante entre os centrais fez 22 em 24 jogos. A melhor dupla atacante da Liga está, no entanto, no Stabaek, formada por Gunnarsson e o veterano Nannskog, que aos 33 anos continua uma fábrica de golos. Nas últimas três épocas, fez 65 em 81 jogos. No Viking, também está um avançado muito interessante: o nigeriano Ijeh, ágil e oportuno, já há seis anos (entre Suécia, Dinamarca e Noruega) a vaguear, sem ser descoberto, pelos gélidos relvados escandinavos. Uma fatalidade que persegue, afinal, muitos destes jogadores, craques que vêm do frio.

Tampere e os «canarinhos» do frio

Na Finlândia, existe uma nova ditadura. Do Tampere United. Dominou, sem oposição, as duas últimas Ligas, num tempo em o HJK Helsínquia caiu numa crise existencial. Ojanpera e Savolainen são os dois grandes pilares do onze, fazendo o corredor central desde a entrada da área. Pohja move-se por toda a frente de ataque e Niemi foi o nº9, muito perigoso dentro da área. O melhor marcador do Campeonato foi, no entanto, o brasileiro Rafael Pires, ponta-de-lança do FC Lahti que não passou do 8ºlugar numa Liga com 14 equipas. Rafael, 29 anos, há muito que vive na Finlândia. Desde 1997. Ao longo das dez épocas, o seu jogo impôs-se mais pela robustez física do que pela tradicional habilidade brasileira. Esta aculturação estilística é, aliás, indispensável para poder triunfar num futebol essencialmente físico. Também na Suécia emergem outros bons avançados brasileiros. Depois de Ari, goleador do Kalmar que foi para o AZ, esta época destacou-se César Santin, avançado móvel do Kalmar, e Paulinho Guará, do Hammarby, muito combativo. Depois destas experiências escandinavas todos ganham um maior poder físico que pode facilitar a futura entrada em Ligas mais fortes do Sul da Europa. Atenção, pois, a estes goleadores canarinhos do frio

A cruzada de Larsson

Tenho uma admiração especial pelos jogadores veteranos. Aqueles que resistem tempos infinitos. No auge, sem se arrastarem. É como desafiar as leis do tempo. E não existe maior desafio do que esse. No futebol, como na vida. Henrik Larsson é um desses casos. Desde os tempos das longas tranças rasta, festejando os golos com a boca aberta e a língua de fora, até à careca do presente, com o olhar mais sereno, mas o mesmo instinto goleador. Quando o Manchester ainda suplicava por ele, decidiu voltar às raízes. No Helsingborg, aos 36 anos, o mesmo estilo e sabedoria futebolística. Poucos jogadores terão conseguido um fim de carreira tão personalizado. Acredito que o último golo, no último jogo, seja, nos relvados, mais uma expressão artística de como diria Marguerite Yourcenar, “todo o momento de perfeição tem implícita a palavra fim”.

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