Sempre que me pedem para recordar o jogo da selecção que mais me marcou, vem-me à cabeça sempre o mesmo. Como, em geral, quem pergunta são jornalistas jovens, ficam confusos. Foi o que mais me deixou feliz e ainda hoje arrepia-me recordar, um miúdo pregado à televisão a preto-e-branco, sofrendo. Qual é? Escócia-Portugal, apuramento para Mundial 82. Acabou com uma espectacular vitória nossa por...0-0! Leram bem, não é gralha. Como normal, fomos massacrados todo o jogo. Podia dizer o onze, mas, na verdade, recordo mesmo um jogador: Bento. Defendeu tudo. Em voo, pulando o impossível, segurando bolas que iam mesmo a entrar. E recordo que engatámos um contra-ataque com o Manuel Fernandes a rematar mesmo a rasar o poste. Foi o suficiente para ter a sensação que até podíamos ter ganho. Claro que, no fim, não fomos apurados. Foi a Suécia, que no jogo decisivo, na Luz, ganhou com um golo no minuto 89. Tudo normal, portanto.
Era isto ser futebolisticamente português nesse tempo. Já passaram 31 anos. Leio agora que Portugal esteve em todos Mundiais e Euros do Séc. XXI. Até lá, no século anterior, só em três. Existem razões palpáveis para esta mudança?
Sim, em termos externos (o cenário sociopolítico-desportivo europeu mudou radicalmente; a Lei-Bosman e os nossos craques nas grandes Ligas; apuram-se mais selecções).
Não em termos internos. A casa estrutural onde as selecções nascem e vivem (sobrevivem) é a mesma há décadas. Só que o jogador português não é o...futebol português. É outra realidade. Nascida e forma(ta)da de outra matérias competitivas.
É irónico: o futebol português não é uma grande jogada de Cristiano Ronaldo, mas o êxito da selecção, paradoxalmente, pode ser. Ou seja, tudo mudou de fora para dentro. E na grande jogada do Ronaldo leiam metáforas de outras grandes jogadas de outros jogadores através dos tempos.
Nos anos 70 e 80 também tínhamos grandes jogadores. Dos melhores que vi no nosso futebol. Um 10 como Oliveira (ou Alves). Um 9 como Jordão (ou Gomes); E técnica, sempre tivemos. De categoria. Não nos davam era tempo para, em campo, a colocar em prática. Ficávamos derrotados logo na batalha original da força e da velocidade. Acredito que a insustentável leveza competitiva dos talentos dos anos 70 inseridos no diferente contexto presente também atingiriam o êxito dos craques actuais. Porque foi essa mudança autodidacta de interpretação do jogar português que mudou.
Na visão do treino, o treinador português teve uma evolução brutal. Os conceitos de força e velocidade passaram a ser integrados num patamar tridimensional (táctico-técnico, físico e mental) como nunca sucedera. Num ápice, jogo e jogador mudaram. Por isso, por vezes recordo velhos tempos e pergunto: que jogador (que fenómeno) teria sido o Oliveira com a cabeça competitiva do Ronaldo? São mais visões inconscientes de outro futebol. Que nunca existiu, nem nunca existirá.