Os defesas são de Marte, os avançados de Vénus

7 de Outubro de 2010 11:30
Cada sector tem os seus habitantes naturais. A “matemática” do meio-campo. Que “jogadores de elite” existem no actual futebol português?

 

Existem jogadores que deviam vir com “livros de instruções”. Tudo ficaria mais simples. Para o treinador, em busca do melhor jogo para a equipa. Para os adeptos, que assim seriam mais justos na hora de julgar o seu valor. Se tivéssemos de simplificar as duas grandes expressões futebolísticas em termos de jogadores, seria quase automático dividi-los entre avançados e defesas. Como se vissem de planetas diferentes. Os defesas de Marte, mais guerreiros para afastar todas as bolas e ameaças de golo. Os avançados, de Vénus, para serem mais sedutores na hora de conquistar a baliza. Ou seja, como os “homens e mulheres” do livro de John Gray com o mesmo título, eles, em tempos (entenda-se num futebol romântico de antigamente ou meramente teórico) também viviam relações duradouras, porque aceitavam e respeitavam as suas diferenças. Depois, desceram à Terra (entenda-se ao relvado do jogo) e esqueceram as diferenças, passando a fazer exigências mútuas gratuitas e sem sentido. Muitas equipas vivem nesse dilema existencial. E o seu futebol ressente-se disso. Mas, para além das características e missões distintas que cada grupo tem, o jogo dá-lhes outros pontos de distanciamento ou aproximação. Se o talento diferencia-os, a táctica iguala-os. É este ponto que o treinador deve agarrar.
Tem o actual futebol português potencial para reunir, no mesmo onze, esses diferentes núcleos com capacidade de fazer em campo essa comunicação táctica de forma sustentada no tempo? Falo, claro, da sua selecção, e no chamado grupo de “jogadores de elite” que se deve distinguir, a cada espaço temporal de pelo menos dois anos, com dimensão internacional indiscutível. Para atingir esse “efeito táctico” de aproximação é necessária uma “terceira espécie” que só o futebol consagra: os médios. Ao invés dos outros grupos, com código genético diferente, o médio pensa em duas coisas ao mesmo tempo. São eles que, numa equipa, mais definem o estilo de jogo. E, na nossa selecção a questão é essa mesmo. Com a defesa pacificada em termos de soluções e o ataque desenhado por extremos, o problema por resolver está mesmo no meio-campo.
 
A ausência do velho 10, médio-centro ofensivo organizador e com criatividade, como foram, cada qual no seu tempo, Rui Costa e Deco, obriga a mudar a face do sector. Todos os nossos médios de elite são hoje demasiado parecidos no que podem dar ao jogo. Tiago, Manuel Fernandes, Raul Meireles, Pedro Mendes, Veloso, pode cada um ter mais chegada à frente do que o outro, mas nenhum è da chamada segunda linha do meio-campo, todos gostam de vir mais de três. A possível colocação de Pepe como trinco, médio-centro defensivo, ainda confunde mais esta ideia, pois ele é, por natureza um defesa-central (características e perfil físico). Moutinho joga (ou melhor, quer jogar) em demasiados sítios ao mesmo tempo para ser esse elemento de forma clara. Carlos Martins é, hoje, aquele com esse processo mais avançado. Está em grande momento de forma. A única dúvida é saber se irá sustentar essa nova “construção” do seu futebol ao mais alto nível internacional.
Desta forma, cada vez mais o 4x2x1x3 da selecção deve inverter a equação numérica do meio-campo e o «2x1» passar para «1x2». Ou seja, para substituir um jogador, usar…dois jogadores. É a única forma de voltar a comunicar em campo com qualidade.
 
O segredo do bom futebol actual é os jogadores mesmo em posições diferentes em campo pensarem a mesma coisa, ao mesmo tempo, em cada situação de jogo, não distinguindo defesa e ataque (e missões) de forma tão clara pelos seus interpretes. Começar a atacar (recuperada a bola) com os defesas, começar a defender (perdida a bola) pelos avançados. Viverem no mesmo território de elite apesar de terem vindo de “planetas” diferentes.
 
 
 
Sincero demais
 
 
O mundo particular de Cristiano Ronaldo, uma espécie que há muito disparou da realidade terrena do futebol português e vive numa galáxia distante. Fora e…dentro do campo. Elogia-se muito os jogadores que onde põem os olhos, põem a bola. São cirurgiões do passe e do remate. Os verdadeiros mágicos, porém, são aqueles que, com intencionalidade malandra, põem os olhos num sítio e, cirurgicamente, põem a bola…noutro. Ronaldo sabe fazer as duas coisas, mas, nos últimos tempos, o seu futebol, espécie de “TGV com bola”, tornou-se, nesse aspecto, demasiado “sincero”. O que ameaça fazer…faz. Arranques, dribles, remates. As categorias de jogador e goleador são diferentes.
Mas, para entender-mos melhor estas teorias da bola, nada melhor do que regressar aos clássicos. Garrincha. Conta-se que um dia quando um treinador adversário tentou convencer os seus defesas que não era assim tão difícil travá-lo, disse que, sim senhor, que ele era um craque, mas que ele fazia sempre a mesma finta. Simulava ir para a esquerda e voltava a puxar para a direita e passava o defesa com ela. Explicou a finta várias vezes. Os jogadores ouviam-no atentamente. De facto, aquela era mesmo a finta típica do Anjo das pernas tortas, como lhe chamou Vinicius de Morais, só que algo não batia certo, até que, no meio do silêncio, um jogador, o homem que ia andar mais perto dele, pediu a palavra e perguntou: “Sim, mister. Ele faz isso, sim. E vai fazer outra vez neste jogo. Mas…quando?”
 
Ou seja, a sinceridade do futebol não está em fazer coisas diferentes de cada vez que se toca na bola, é, no limite, até fazer a mesma coisa várias vezes, mas ninguém descobrir quando e em que local ela se fará. Cristiano Ronaldo é hoje um mágico “sincero demais”. Basta aprender a “mentir” algumas vezes e criar ilusões para criar… dúvidas. Mas quando é que ele vai arrancar enlouquecido com a bola?

 

 

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