Os dias em que o futebol português mudou

7 de Julho de 2007
Do pentado Cristovão Colombo de Figo ás tranças e madeixas do presente. Na hora de mais um Mundial Sub-20, as recordações dos dias em que nasceu a nova mentalidade do jogador português. A odisseia «queirosiana» da Ocidental praia lusitana para o Mundo.
As imagens provocaram uma sensação estranha. Incómoda, mesmo. Toni, o miúdo guineense que, anos atrás, celebrava os golos abanando a camisola levando o país e um estádio com 100 mil pessoas à loucura, tornara-se servente da construção civil no Luxemburgo. Em vez de bolas de futebol, carrega baldes e empurra carrinhos de mão com cimento. Há 16 anos, era o futuro ponta-de-lança do futebol português. A vida e seus caminhos insondáveis, reservou-lhe, no entanto, outros planos. Quando percebeu que já não dava mais, fechou o livro da bola e passou a escrever outras páginas da vida. Sem os aplausos, estádios cheios e sonhos que invadiram então os campeões do mundo Sub-20. O tempo passa, de facto, depressa. Quando esta semana ouvi os nossos jogadores, ao embarcarem para o Canadá, sobre aquelas conquistas históricas, fiquei perplexo: “Não me lembro”, “Não sei, nunca vi”, “Se calhar ainda nem havia televisão”. Só depois fiz bem as contas. É verdade, nessa altura, 1989 ou 1991, eles ainda estavam no berço ou tinham 3 ou 4 anos. Descontando a obrigação que os responsáveis federativos (treinadores e directores) tinham de lhes explicar o que significam essas conquistas, evitando assim essas tristes declarações, brincando com a história, a verdade é que esta geração já é produto de um novo futebol português. É impossível, no entanto, entende-lo sem fazer uma interpretação histórica das diferentes fases pelas quais ele passou. E, nesse ciclo, a saga «queiroziana» mudou a face do nosso futebol. Chamaram-lhe geração dourada. Mais do que títulos, eles criaram uma nova mentalidade de jogador português. Em vez daquele que, ao intervalo, ia ter com as estrelas adversárias pedindo-lhes para trocar a camisola e sentia um terrível complexo de inferioridade quando jogava no estrangeiro, surgiram jogadores de nariz no ar, atrevidos, conservando a nossa «latinidade» muito própria no trato da bola, mas com outra confiança, sem a lágrima fácil de outrora.
Conta Carlos Queiroz que uma vez, nesses tempos, quando estavam no aeroporto à espera de embarcar para um Europeu de Sub-18, surgiu Paulo Futre, então o único jogador português a brilhar no estrangeiro. Os miúdos correram logo para ele, pedindo-lhe autógrafos. Todos, menos um. Por sinal, o mas pequeno e novinho. Franzino, com o cabelinho louro. Ficou num canto. Quando Queirós lhe perguntou porque também ele não ia ter com Futre, o miúdo respondeu: “Sabe, professor, o meu sonho é um dia o Futre vir pedir-me um autógrafo a mim!”. Esse miúdo era o João Pinto. É verdade que a própria vida, fora do futebol já obrigara o pequeno João a crescer muito depressa, mas naquele simples gesto já estava uma forma diferente de encarar o mundo. E o futebol, também. Ver e sentir o entusiasmo que rodeou aquela selecção no verão de 1991, foi como ver o futebol português nascer de novo. De repente, todo o país libertara-se das guerras norte-sul e da fatalidade do destino, para descobrir, no futebol, pessoas que o faziam sorrir, saltar, chorar de alegria e de quem tinha vontade de ficar amigo. Nem sabiam em que clube jogavam. As gerações seguintes seguiram-lhe os trilhos e continuaram a revolução. Hoje, muitos já acabaram a carreira. O nosso futebol precisa agora que revolucionem mentalidades fora do relvado, clubes e federação. Nem todos, no entanto, seguiram essa estrela como as imagens de Toni disseram friamente. Outros, fizeram carreiras discretas ou anónimas. Cao, Xavier, Resende, Tozé, Morgado, Gil… Cada caso terá uma história, uma explicação. E não há drama nenhum nisto. O futebol vive muito de estados de espírito. De sonhos destruídos. Acho engraçado ver hoje o tempo que passam muitos dos nossos jovens jogadores a arranjar o cabelo. Pintando-o de amarelo, compondo longas tranças, fazendo madeixas. Quando vi pela primeira vez jogar Figo, por volta dos 17 anos, pensei que estava a ver Cristóvão Colombo em forma de jogador de futebol, tal era o seu penteado estilo mediaval. Só hoje percebo como talvez já houvesse algo de premonitório nesse visual. Da Ocidental praia lusitana, eram os dias em que o futebol português começava a mudar… (Na imagem, foto da final de 1991. João Pinto na perseguição a Roberto Carlos...)
1991. Pouco antes do inicio do Mundial Sub-20. No centro, Toni. Com a camisola do seu clube, o FC Porto. Á sua direita, o "discreto" Abel Xavier, então promessa do Estrela da Amadora. Á esquerda, um miúdo anónimo que chegara de fazer uma época na II Divisão, com a camisola do Fafe.

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